Criança, A Alma do Negócio

Há mais de 10 anos eu exibo este documentário em escolas (Ensino Médio) e promovo debates. Vi Criança, A Alma do Negócio (2008, dir.: Estela Renner) pela primeira vez em 2010. Duas semanas antes da realização da prova do ENEM em 2014, eu orientei meus estudantes a fazerem uma redação argumentativa com este mesmo tema, que acabaria sendo o da prova: regulação da publicidade infantil no Brasil.

É estranho rever e pensar neste filme hoje em dia (2021). Os problemas que tínhamos no auge da era Lula / PT neste país eram bem diferentes. A erradicação da extrema pobreza através de programas de transferência de renda (bolsa-família) e a inserção social das classes trabalhadoras via consumo – as classes C e D: a “nova” classe média – faziam girar a economia no comércio de bens duráveis (a “linha branca”, aparelhos de TV, automóveis), turismo, financiamento imobiliário (“Minha Casa, Minha Vida”) e estudantil (ProUni, Fies).

A ampliação da rede de Universidades Federais garantiu possibilidades até então inéditas de ascensão social concreta a muitas, muitas pessoas. No entanto, outros direitos básicos ainda estavam longe de serem garantidos, ou sequer recebiam investimento adequado: quem não se lembra (ou não quer se lembrar) de Belo Monte, ou da negligência quanto à necessidade de se elaborarem e aprovarem leis de regulamentação da mídia?

É em relação a esta última que chegamos à questão da publicidade direcionada às crianças, ou que se utiliza destas para anunciar bens e serviços direcionados a adultos, particularmente aquela que tem como público-alvo as classes mais vulneráveis – tema que parecerá secundário no estado de catástrofe distópica em que vivemos com o atual (des)governo federal, seus desmandos e projeto de genocídio geral em pleno andamento.

Mesmo assim, é um assunto ainda necessário e não faltou quem, neste governo (o ex-ministro da justiça e ex-juiz Sérgio Moro, quando estava no cargo), quisesse derrubar a resolução da CONANDA (Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente), de 2014, que recomendava a proibição total de propaganda comercial direcionada às crianças – fato que foi parar na prova de redação do ENEM daquele ano.

Por isso, um documentário como Criança, A Alma do Negócio é extremamente importante e exige de nós, sociedade civil, uma vigilância constante e cidadã. Mesmo que se trate de um filme realizado com visíveis poucos recursos (ou especialmente por causa disso). É o longa de estreia da diretora Estela Renner, que depois realizaria – no mesmo universo temático – o documentário Muito Além do Peso (2012), sobre obesidade infantil e suas relações com o consumo e a publicidade.

Mas a precariedade da produção não impede que a cineasta atinja momentos de alta expressividade cinematográfica. O maior deles talvez seja o plano-sequência que segue a menina por sua casa (visivelmente modesta) enquanto ela vai apontando e apresentando as suas “conquistas” de consumo: geladeira, fogão etc., até o momento em que a criança aponta para nada menos do que um jet-ski encostado a um canto, somando-o à “conta” como se fosse a coisa mais natural e banal deste mundo.

Sim, um jet-ski parado, com jeito de que não é usado há muito tempo. No aguardo das férias escolares? Para o espectador, é um choque quase surreal a imagem repentina desse veículo aquático jogado a um canto da cozinha de uma casa de família típica das classes C e D. E esse “surrealismo” digno de Magritte (um objeto completamente deslocado do contexto de uso que lhe dá origem e significado – procedimento também dadaísta) contribui para o reforço da tese do documentário: o absurdo que são os hábitos de consumo desregrados praticados por crianças e a responsabilidade de empresas fabricantes e anunciantes nisto.

Criança, A Alma do Negócio está disponível no YouTube, em canal oficial da produtora Maria Farinha Filmes.

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