A crítica dos clichês e os clichês da crítica (Minha Mãe É Uma Peça, 2013)

O Brasil tem uma longa e bela tradição na comédia burlesca: desde o dramaturgo Martins Pena (século XIX) até as chanchadas (décadas de 30 a 60 do século XX), que foram a melhor tentativa do cinema brasileiro em ter uma produção industrial nacional de vaudeville (pelo menos, até as conquistas da Globo Filmes). Isso para não citar, lá atrás (século XVII), os poemas-esculachos do barroco Gregório de Matos Guerra, o nosso “boca do inferno”.

Lembremos também que o burlesco, apesar do desdém da inteligentsia diletante, é um gênero artístico muito bem estabelecido em sua proposta e estrutura (precisamente as suas “fórmulas”, seus “clichês”) desde o teatro medieval europeu (as farsas) – para não dizer desde a Grécia Antiga (as comédias). E aquela velha divisão entre gêneros “altos” (a nobre tragédia) e gêneros “baixos” (a comedia popular) já deixou de valer faz muito tempo.

Agora, o crítico de paladar mais refinado poderá retrucar: “ora, mas a Globo Filmes não tem a dimensão de crítica político-social que têm as chanchadas!” Sim, a Globo Filmes não é nenhuma organização militante, mas tampouco era a Atlântida. E a crítica highbrow costumava denunciar as chanchadas como entretenimento industrial vulgar, da mesma maneira como muitos críticos hoje “denunciam” as comédias de costumes da Globo Filmes.

Assim, desqualificar em absoluto um filme tão somente por este ser aparentemente fabricado em cima de “clichês” talvez diga mais a respeito do próprio crítico, do que sobre o filme. Ainda mais se levarmos em conta o fato incômodo de que tais “clichês” são quase sempre referentes a vivências e estéticas bastante populares. Aqui, o sommelier de cultura reclamará que se trata de indústria cultural, e não de cultura popular “raiz”.

Que seja! Podemos desmascarar o quanto quisermos as artimanhas alienantes do entretenimento de massa; mas isso não fará com que deixe de ser vivenciado como uma manifestação cultural autêntica e identitária por milhões de pessoas. O poder catártico exercido por filmes como Minha Mãe É Uma Peça não deve ser desprezado, sob pena de matarmos o paciente para “curarmos” a doença.

No fundo, a diferença é entre uma crítica madura, que apontará suas armas para a Indústria Cultural; e uma crítica pueril, que ficará pregando ao povo (como uma cartilha jesuítica) para não ver esse tipo de filme, que esse tipo de filme é “pecaminoso” etc. Portanto, não se trata de defender que o filme de Paulo Gustavo seja uma obra-prima. Não é. Mas, por outro lado, é bom controlarmos os ímpetos da fúria crítica caricata: intelectualista ou militante.

Uma crítica fundamentalista nos moldes do elitismo de um Adorno, ou nos moldes do paternalismo condescendente do velho CPC às vésperas do golpe de 64 (o Centro Popular de Cultura, da União Brasileira dos Estudantes – UNE), que tentou ditar as “boas regras” de uma arte nacional que não estivesse nas garras grosseiras do povo – sem sofisticação suficiente para produzir obras de qualidade –, tampouco nas garras perversas dos grandes conglomerados de mídia – com sua propaganda burguesa alienante.

Ou seja, uma arte ditada pelo comando central de uma elite intelectual engajada: a “arte popular revolucionária”, conforme manifesto assinado em 1962 pelo sociólogo Carlos Estevam Martins, primeiro diretor do CPC – e analisado em Brasil em Tempo de Cinema: ensaio sobre o cinema brasileiro de 1958 a 1966, de Jean-Claude Bernadet, obra clássica da nossa bibliografia fílmica.

Precisamos ser menos caricatos do que aqueles que acusamos de serem caricatos.

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