A mise en scène despojada deste longa de estreia da diretora Shatara Michelle Ford combina com o realismo social da história da jovem negra (Renesha, interpretada por Brittany S. Hall) que, após sofrer violência sexual, é levada pelo namorado (Evan, interpretado por Will Brill), branco, em uma peregrinação por hospitais de Austin (Texas) em busca do rape kit; nisto, ela será abatida por toda a carga de preconceitos que formam sua condição social – em termos de gênero e de etnia, sem possibilidades de redenção.
Mesmo assim, o filme se deixa contaminar, em alguns momentos, por uma atmosfera onírica, carregada de sugestões opostas: os momentos de felicidade plena junto ao namorado antes do crime; o estado de letargia e confusão mental após Renesha ser drogada pelo seu estuprador em um bar; o absurdo kafkaniano da burocracia hospitalar e forense que ela e Evan enfrentarão depois. Mas isto não entrará em contradição com o tom realista geral do filme; antes, reforça-o em uma outra chave: o microrrealismo das vivências subjetivas.
É aqui que encontramos a alma de Test Pattern (2019), que foi lançado comercialmente apenas em fevereiro de 2021 nos EUA (cinemas e Amazon Video). O fato em si importa menos do que a experiência, a memória e o sentido dessa experiência e memória para Renesha – em primeiro lugar, ela precisa reconstituir a memória do fato, ter uma cognição minimamente segura sobre o que acontecera, uma vez que estava extremamente dopada. E não será isto justo?
A desconstrução de padrões de pensamento e valores sexistas não passa por reconhecermos, darmos espaço e respeito para o testemunho das mulheres, para suas vivências específicas de prazer ou, especialmente, de dor, sofrimento, violência? O que importa não será nós as ouvirmos, crermos em seu testemunho e respeitarmos a sua vontade? Não é precisamente isto em que o movimento #metoo baseia a sua luta? No entanto, tudo isto está além do alcance cognitivo e de ação de Evan.

E o fulcro existencial do filme de Shatara Michelle Ford é a profunda e irremediável solidão da sua protagonista. Sem que haja tempo hábil para que ela, antes de mais nada, processe internamente a experiência terrível que sofrera, Evan arrasta Renesha por toda a cidade, expondo-a a médicos e policiais, contra a sua vontade. Fica claro que é mais importante para ele saber a extensão do acontecido, do que para ela. Por que? O motivo é fácil de intuir, conhecendo a mentalidade patriarcal: Evan precisa saber se tem damaged goods nas mãos.
Não é à toa que Test Pattern reconstitui nos mínimos detalhes a relação entre ambos, desde o momento em que se conheceram. As longas 24 horas que eles passam juntos após o crime transcorrem como se ela tivesse estampada no rosto a pergunta: “com quem estou dividindo a minha vida?”; enquanto a questão, para ele, é: “o que tenho em mãos aqui?” O fator complicador é que, excetuando a reação do namorado ao estupro, Renesha não tem, nem nunca teve motivo algum para pensar que Ethan não fosse um ótimo companheiro.
No conjunto, o filme de Shatara Ford parece funcionar, à sua própria maneira, como uma releitura em chave invertida de um dos filmes mais fundamentais do cinema e da formação da alma coletiva estadunidense em suas vitórias e traumas, dirigido por um outro Ford: Rastros de Ódio (“The Searchers”, 1956), de John Ford. Evan se transfigura facilmente no obsessivo Ethan (John Wayne), sempre à procura (searching); mas Renesha não é, definitivamente, nenhuma Debbie (Natalie Wood).
O diálogo (discordante) entre os dois filmes no último plano é evidente: em Test Pattern, é Renesha quem entra dentro de casa, sozinha, enquanto Evan fica do lado de fora, porque sabe que não há lugar para ele lá dentro, mas por razões bem diferentes daquelas de John Wayne. A câmera também fica de fora (ao contrário de John Ford), não porque não tenha qualquer sororidade para com a protagonista; mas para consolidar, uma última vez, o ponto deste filme: Renesha está sozinha, por conta própria. Não há salvador possível.
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