Roadrunner: a film about Anthony Bourdain

O que é um homem? O que é uma vida? Pode-se falar, honestamente, em legado? Em que medida? Morgan Neville não se acanha em mergulhar fundo no universo privado de Tony Bourdain em Roadrunner: a film about Anthony Bourdain (2021), para tentar responder a essas perguntas – se estas não forem tarefa ambiciosa demais –, da mesma maneira como já tinha feito com Fred Rogers – outra celebridade que nos desperta essa mesma inquietação – em Won’t You Be My Neighbor? (2018).

Surpreendentemente, o conundrum ético que fez a fama do documentário antes da estreia, o fato de Neville ter construído falas para Bourdain (falecido em 2018, por suicídio) usando um programa de computador que sintetiza voz, acaba perdendo destaque perante a quase obsessão do documentarista em explorar os recônditos mais escuros da subjetividade do protagonista, de uma maneira que lembra Dostoievski, entrevistando (mesmo com perguntas invasivas) quase todas as pessoas que eram próximas do chef, writer, TV host e traveller.

A questão-problema que Neville coloca para si é de um tipo – para não dizer de uma ousadia – talvez impossível de ser respondida e uma temeridade de ser colocada; no entanto, é uma questão bastante presente na Literatura clássica de ficção: a sombra de Bourdain (o lado escuro de sua alma, que afinal teria acabado por dominá-lo) passou a exercer sua influência ruinosa a partir de determinado momento (tardio) da vida do escritor – digamos, a partir do início do seu relacionamento com a atriz e diretora Asia Argento (que não é entrevistada em momento algum do documentário) em 2016 –, ou essa sombra sempre esteve lá, pelo menos desde que Bourdain chegara à TV em 2005, construindo pacientemente o seu trabalho catastrófico, mantida sob (tentativa de) controle precário por parte do chef?

Esse é o eixo sobre o qual se monta Roadrunner, sem deixar de lado o reconhecimento do trabalho inspirador feito por Bourdain, que o coloca na categoria rara de herói contemporâneo na mídia de massas (assim como Fred Rogers). Mas a angústia dele não é diferente daquela de outros heróis, artistas, celebridades: deve ser extremamente doloroso perder-se, ou sentir-se perder, por trás da máscara social / midiática da persona; e igualmente difícil manter-se saudavelmente, profissionalmente distanciado da persona.

Como disse o poeta português Fernando Pessoa (que só se tornou realmente famoso após a sua morte), falando sobre a ilusoriamente invejável condição de vida da celebridade: “tornam-se de vidro as paredes da sua intimidade”. Não consigo deixar de ver, por trás de muitos olhares, sorrisos e tiradas irônicas de Bourdain na frente das câmeras, uma postura de cinismo, de desprendimento auto-sarcástico, quase uma síndrome de impostor: como se a repentina fama (após a publicação do seu best-seller “Cozinha Confidencial”, que o levou à TV) não fosse mais do que um jogo divertido, porém perigoso, do qual é preciso sempre manter certo distanciamento saudável e desejar que seja tudo efêmero – os abençoados “15 minutos de fama” após os quais poderíamos voltar à paz do anonimato.

Será mesmo possível fazer isso? Não consigo deixar de pensar nesta questão como um tema fáustico. Mas Tony Bourdain, como escritor, leitor voraz de Literatura e cinéfilo, provavelmente sabia disso melhor do que ninguém. Prefiro não pensar que ele tenha sido derrotado (como alguns de seus amigos o fazem no documentário), pois quem tem alma artística e fáustica sabe que não existe vida sem esse jogo. E a “derrota” no jogo é menos importante do que a experiência do jogo em si (não estou me referindo, aqui, à depressão clínica). O artista Anthony Bourdain viveu a vida e o mundo sem reservas. Essa é a sua maior inspiração, seu maior legado.

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