Não é necessário lembrar o quanto a mitologia cavaleiresca é central na formação e difusão de uma cultura eurocêntrica (e, portanto, colonialista, imperialista), tanto quanto as figuras do próprio Jesus Cristo e de seus apóstolos – talvez até mais do que estas, uma vez que o atributo maior da cavalaria medieval era ser guardiã da fé cristã contra os intrépidos inimigos que a ameaçavam (os muçulmanos em jihad).
Também não é preciso lembrar o quanto essas ideias continuam exercendo um poder encantatório (e perigoso) até hoje, das diversas guerras “ao terror” ao terrorismo aberto da extrema-direita “cristã” que se julga plena herdeira de um Amadis de Gaula, não importa o quanto Miguel de Cervantes, em D. Quixote de la Mancha (1605-1615), já tenha desmascarado e ridicularizado impiedosamente os supostos ideias cavaleirescos.
É claro que o reacionarismo passadista, tradicionalista e anti-iluminista da primeira geração romântica (entre o final do século XVIII e começo do XIX) fez muito para reabilitar as velhas canções de gesta, romances e novelas de cavalaria, servindo de ponte para que a sua fascinação alcance os nossos dias, de fantasias literário-cinematográficas infanto-juvenis a grupelhos de ódio e terrorismo nazi-fascistas.
Quero dizer, com isto, que a nossa sociedade (ocidental) possui uma relação de amor e ódio com os mitos dos cavaleiros medievais, nossa sociedade pós-moderna que podou todos os ramos do velho Romantismo, mas se esqueceu de arrancar suas raízes. É neste cenário que devemos compreender – e apreciar – The Green Knight (2021), de David Lowery, uma releitura bastante livre do poema original (“Sir Gawain and The Green Knight”), anônimo do século XIV.
Lowery (também roteirista) mantém alguns dos valores morais fundamentais da história original: a coragem, a integridade, o desapego. Esses ideais continuam válidos, apesar do encanto exercido pelo niilismo e pelo cinismo pós-estruturalistas (precisamos de um novo Cervantes). Por outro lado, Lowery dribla bem as armadilhas que poderiam fazer com que a extrema-direita se apropriasse de seu filme (pois é só isso o que ela sabe fazer), como aconteceu com The Matrix (1999), das irmãs Wachowski.
O principal, neste intento, é colocar Dev Patel, ator britânico de origem hindu, no papel de Sir Gawain, cavaleiro da távola redonda do Rei Arthur e sobrinho do próprio monarca. Os rastejantes trolls que, não obstante, se julgam verdadeiros templários e refestelam nas fossas mais fedorentas da internet só não vão ficar furiosos porque não devem ter capacidades cognitivas ou de concentração para verem filmes da A24 e devem já estar muito ocupados no papel de gatekeepers da Disney, Warner etc.
Ademais, a bravura e o desprendimento (inclusive quanto à sua própria vida) que são marcas invioláveis do bom cavaleiro só escancaram, ainda mais, a ridícula sem-vergonhice dos tradicionalistas de hoje em dia, todos covardes (a imagem do incel guerreiro viking de cadeira gamer): basta comparar as atitudes deles com espadinha na mão, sob os holofotes (por exemplo, durante a invasão do Capitólio nos EUA em janeiro deste ano), e a choradeira histérica depois que são levados a responderem por seus atos e têm o machado da justiça sobre os seus alvos pescocinhos.

Quanto ao belo e rigoroso formalismo de The Green Knight, algumas palavras sobre ritmo. Ritmo é vida. A alternância harmoniosa entre som e silêncio, ou entre diferentes tipos de sons, é o que dá estabilidade ao cosmo, ao coração, aos pulmões. Não é à toa que música é a arte que mais entra fundo em nossa alma, pois é a que mais dialoga com as cadências que nos fazem existir. E não é à toa também que a cultura humana mais primeva é musical. Música foi a primeira arte, e a primeira Literatura se fez música para vir ao mundo, no formato da poesia.
Poesia que originalmente carrega nossa teogonia, cosmogonia, mitos, heróis originários, fundadores, desde Gilgamesh e Aquiles até Arthur e seus cavaleiros. A primeira diferença formal entre poesia e prosa é o ritmo, que dá corpo e alma ao verso. O ritmo também nos ensina: a cadência regular de versos facilita a memorização, que nada mais é do que saber de cor = saber de coração, permitir que se grave em nosso espírito o que originalmente emana dele e é de sua mesma natureza.
É assim que a Literatura existe desde muito antes de existir escrita: a tradição oral de canções de deuses e heróis lembradas e relembradas geração após geração, desde tempos imemoriais. Literatura e Mito são irmãos gêmeos; afinal separados, mas cuja identidade semelhante é irrevogável e, de quando em quando, trazida de volta à tona: o mito permanece vivo enquanto tem a nos ensinar a respeito de nós mesmos, em nossa aventura neste mundo.
Já muito se discutiu o papel do cinema (posteriormente, da TV) em um retorno das sociedades científico-técnico-industriais (domínio da escrita) à oralidade, ou no estabelecimento de uma nova (forma de) oralidade. E alguns dos melhores cineastas compreenderam e assumiram o necessário manto de aedos, de bardos nos meios de expressão preferenciais do mundo moderno, do mundo das máquinas.
Não quero dizer, com isso, que David Lowery deva ser alçado ao mesmo panteão que eles pela “imortalidade” das suas obras. Mas o autor de A Ghost Story (2017) demonstra saber o terreno em que pisa. É por isso que The Green Knight apresenta dois momentos de demarcação formal que declaram, simbolicamente, o seu pertencimento a uma ancestralidade de estilo (oral) e de gênero (poesia), como já anuncia a voz que declama a epígrafe:
“Look, see a world that holds more wonders than any since the Earth was born. (…) I’ll lay it down as I’ve heard it told. (…) Forever set, in heart, in stone, like all great myths of old.” Olhai, vede um mundo que guarda mais maravilhas do que quaisquer outras desde que a Terra nasceu. (…) Eu vou contá-la (a história) como eu a ouvi ser contada. (…) Marcada para sempre, no coração, na rocha, como todos os grandes mitos ancestrais.
São dois momentos em que um elemento sonoro diegético compõe ritmicamente, em contratempo, com a música que toca (não-diegética): na cena de abertura, com uns pingos de água que caem no parapeito de uma janela; e no “miolo” do filme, quando Sir Gawain bate nervosamente para que se abra uma pesada porta de madeira. Esse recurso facilmente chamativo, que poderia ser confundido com um mero floreio estético, sugere na verdade um princípio de versificação audiovisual, em o filme de Lowery presta uma honrada reverência à sua matéria poética de base. É, definitivamente, um dos grandes longas de 2021.
Deixe um comentário