Infinity Pool

Os missionários jesuítas do século XVI tinham uma relação bastante peculiar com o espaço onde estabeleciam suas missões. Essa relação nasce dos mesmos dispositivos psicossociais que vão alimentar muitas narrativas de horror pelos séculos seguintes, na Literatura e no Cinema. Nas cartas que eles nos deixaram, lemos a respeito do rígido cuidado que tinham em não se aventurar – principalmente à noite – para além dos limites cercados da missão onde residiam, rezavam e recebiam os indígenas para a catequese. O espaço fechado e protegido da redução era uma estufa civilizada em meio à natureza selvagem, ao caos, ao desconhecido. Fora desse espaço estrito, guardado por Deus, tudo era domínio do diabo e estava sujeito à ação do diabo.

O Cinema já fez muito e bom proveito desse estado mental. Meus exemplos favoritos são Apocalipse Now (1979, que pode ser resumido na fala “Don’t get off the boat!”), do Francis Ford Coppola, e Alien (1979), do Ridley Scott. Brandon Cronenberg, por sua vez, apropria-se de maneira bem interessante desse tópos, atualizando-o para uma temática social bastante contemporânea, e que também costuma ser vista em diversos filmes e séries de TV, de Bacurau (2019) a Triangle of Sadness (2022) e The White Lotus (2021-): a farra sem limites de ricos e ultrarricos – e(ou) de cidadãos do Norte Global que ousam pisar para além dos seus cercadinhos bem protegidos (principalmente em rumo ao Leste Europeu, ou ao Sul Global).

O curral severamente sitiado dos resorts all inclusive de luxo é uma das melhores reposições modernas das reduções jesuítas, e a mise en scène de Cronenberg explora isso de modo consciente. Agora, o toque especial e verdadeiramente autoral em Infinity Pool, típico do sobrenome Cronenberg, vem do fato de que essa estrutura da missão colonial-catequética, estrutura essa ao mesmo tempo espacial, arquitetônica, psíquica e social, só se sustenta sobre os pilares irremovíveis do EU e do OUTRO, erguidos em uma posição inquestionavelmente dicotômica, a partir de visões de mundo em que imperam concepções etnocêntricas e classistas. Brandon Cronenberg irá promover uma metamorfose quimérica dessas concepções.

O filho do Homem tentará – muito provocativamente, é claro – confundir não apenas o estatuto social do EU e do OUTRO, mas também a sua própria ontologia (“o eu é um outro”, já dizia Lacan). Com isso, abrirá uma nova caixa de Pandora e instalará um outro tipo de caos e de tentações demoníacas. Infinity Pool, já no próprio título, alude a relações especulares (mais uma vez, Lacan) colocadas em abismo (mise en abyme): um jogo de reflexos mútuos infinito, rodando em uma engrenagem irrevogável e vertiginosa a ponto de perdermos todo e qualquer referencial. Em vez dos banais jump scares, o horror aqui brota de um assombro, um estranhamento (unheimlich) existencial. Não consigo imaginar uma noção mais aterrorizante de Inferno.

Infinity Pool (Canadá / Croácia / França / Hungria / EUA, 2023, 118 min., dir.: Brandon Cronenberg). O filme ainda não tem data de estreia no Brasil, mas já pode ser visto no exterior no formato digital de VOD (video on demand).

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