Mato Seco em Chamas

Eu me lembro bem de, há 20 anos, sonhar com um olhar como o de Adirley Queirós para o cinema brasileiro contemporâneo. Um olhar investigativo para a questão social e sensível, atencioso carinhoso para com o povo. Um olhar sem condescendência, sem agenda política sectária, sem teses a serem “demonstradas”. Na época (começo dos anos 2000), incomodavam-me muito exploradores da miséria alheia da estirpe de Cláudio Assis, Fernando Meirelles, Sérgio Bianchi. Pornomiseria, como já foi muito bem definido por Luis Ospina e Carlos Mayolo no cinema colombiano dos anos 1970.

Em 20 anos, o cinema brasileiro se democratizou e popularizou muito, tanto na recepção (mais acesso aos filmes), quanto na produção (mais acesso aos cursos superiores de formação em audiovisual). Graças, é claro, às políticas de fomento e investimentos promovidas pelos dois primeiros governos Lula e pelos governos Dilma antes do golpe de 2016. Realmente, em 2003 seria praticamente impensável um cineasta de origem popular como Queirós, com seu olhar para a classe trabalhadora que só quem veio dela sabe ter – pelo menos, no circuito comercial ou dos grandes festivais.

O cinema de Adirley Queirós, a um só tempo sociológico e poético, ficcional e documental, inquiridor e meditativo, é o cinema anti-positivista por excelência: anti-determinista, anti-naturalista (pensando no velho Naturalismo literário do século XIX, a verdadeira praga do cinema brasileiro da “retomada”, entre os anos 90 e 2000). Um filme como Mato Seco em Chamas não está a serviço de teorias, de causas. É um filme politizado como tem que ser, porque o ser humano é um animal político, tentar ser apolítico é cair nas garras do pior tipo de política. Mas a política de Queirós brota da realidade mostrada na tela, e não o contrário.

Mato Seco em Chamas, se peca, é tão somente pelo excesso em querer mostrar, fazer ver e fazer reconhecer, principalmente aqueles que ninguém vê, que ninguém quer ver. Expressar: sua inspiração é daquelas dotadas de ares românticos, lançada sem lastro por sobre o mundo. Manifestar: tudo o que aparece é carregado de sentido. Daí a duração longa do filme, que alguns poderão achar excessiva, apesar do esplendor da fotografia e do poder hipnótico, imersivo das personagens, de suas vivências (reais e fictícias) e do mundo em que vivem (tão próximo e tão distante das camadas médias da população brasileira).

Queirós une o melhor de dois mundos dentro do universo que é o cinema brasileiro: o cinema de gênero de baixo orçamento, sem medo de ser feliz, de José Mojica Marins; e o cinema etnográfico de Geraldo Sarno. Há momentos em que Mato Seco em Chamas lembra a veia poética dos curtas documentais da Caravana Farkas pelo Brasil profundo, entre os anos 60 e 70. Como o momento em que a entrevistada tenta explicar a atração trágica exercida pelo crime, ou como o trabalho de homens que descarregam lenha de um caminhão: o som das toras caindo umas por cima das outras ganha um tom e ritmo quase musicais. Instantes de puro cinema.

Mato Seco em Chamas (Brasil, 2022, 153 min., dir.: Joana Pimenta e Adirley Queirós). Estreia hoje, 23 de fevereiro de 2023, nos cinemas.

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