Joyland

A arte do cinema, particularmente em sua forma narrativa, é dotada do atributo único de fazer o espectador encarnar no ser e no existir de outra pessoa. Isso traz, para a Sétima Arte, o poder todo especial de expandir o campo da sensibilidade e das experiências de vida do público, ainda mais quando se trata de sensações e experiências de um OUTRO diferencial, não-hegemônico, não-normativo. Valores humanos e democráticos de coexistência, diversidade e tolerância passam, necessariamente, pela forma narrativa: na literatura e, em especial, no cinema.

Como diz o personagem Montag (Oskar Werner), no Fahrenheit 451 (1966) de François Truffaut, ao começar a questionar sua profissão de destruidor de livros em um mundo onde a língua escrita é proibida, iniciando-se no hábito libertador da leitura: “Por trás de cada livro, existe uma pessoa”. Acrescentaríamos: por trás, também, de cada filme; uma ou várias pessoas. E há filmes que realizam essa grande função de maneira magistral. Filmes como Joyland (Paquistão / EUA, 2022), do jovem cineasta Saim Sadiq – estreante em longas-metragens.

Joyland conta a história do jovem Haider (Ali Junejo), filho mais novo de uma família fortemente tradicional, governada com mão de ferro pelo patriarca ancião (Salmaan Peerzada). Haider nao leva muito jeito para cumprir os papéis de gênero impostos a ele, baseados na imagem social do “macho” dominante: sensível demais para tanto, ele não consegue, por exemplo, abater o cabrito que servirá de refeição para a família. Torna-se, por isso, uma decepção para o pai.

Decepção essa que será reforçada pelo papel “provedor” cumprido pela sua esposa, Mumtaz (Rasti Farook), que não só mata o cabrito, mas sustenta o marido também com renda obtida pelo trabalho fora de casa. Então, Haider consegue um emprego de dançarino burlesco na equipe de Biba (Alina Khan), mulher trans que faz relativo sucesso como cantora nas boates liberais de um Paquistão islâmico rigidamente conservador. É claro que essa nova profissão de Haider precisará ser mantida em segredo.

Enquanto isso, crescem as pressões impostas a Mumtaz, para que engravide e dê à luz um filho homem, de preferência. Ela deixará de trabalhar e de estudar, para cuidar da casa enquanto Haider passa longas horas entre ensaios e apresentações. Essa situação toda cobrará um preço alto para a saúde mental da jovem esposa. Para completar o cenário, Haider se apaixona por Biba e começa a ter um relacionamento secreto com ela. Saim Sadiq, que também assina o roteiro, não faz concessões redentoras e dará um encaminhamento trágico para a história.

Joyland fez sua première no Festival de Cannes em 2022, recebendo o prêmio Un Certain Regard. Também recebeu críticas muito positivas nos festivais de Toronto e Sundance. Chegou à shortlist do Oscar. Mas nada disso foi o suficiente para que as autoridades paquistanesas deixassem de censurar o filme. Um dos censores, o senador Mushtaq Ahmad Khan (o qual não teria visto o filme, segundo matéria publicada na revista Sight & Sound de abril), declarou que o filme é “repugnante para as normas de decência e moralidade”.

Nada muito diferente do que costumavam vomitar os censores de filmes durante a ditadura civil-militar no Brasil entre 1964 e 1985. O excelentíssimo senador ainda argumenta que “o filme lida com um tópico que não tem lugar em uma república islâmica” e que “é parte de uma moda de terrorismo cultural que questiona nossas instituições matrimoniais e nossas normas culturais”, sendo, por isso, um “ato de guerra”. Como sempre, não existe nada mais frágil e histérico do que a masculinidade tradicional.

Em novembro do ano passado, Joyland foi liberado, após ser mutilado pela censura com cortes constrangedores que mais excitam do que reprimem o olhar malicioso (típica burrice de todo autoritarismo puritano), para exibição em certas regiões do Paquistão – mas não na região de Punjab, na qual se passa a história e que é a província mais populosa do país. Atualmente, está em exibição na Europa e nos EUA (não há previsão de estreia no Brasil). O teor da recepção pela crítica sugere que o filme poderá estar nas listas dos melhores de 2023.

Precisa ser destacada a atuação de Alina Khan, jovem atriz trans de 24 anos em seu primeiro longa-metragem. Sua história não difere substancialmente da história de muitos e muitas adolescentes trans, principalmente no Brasil – país que mais assassina pessoas trans no mundo. Khan fugiu de casa ainda na adolescência, uma vez que sua transicão não for a aceita pela família; viveu nas ruas e chegou a trabalhar – e ser violentada – como dançarina erótica em casas noturnas do mesmo tipo que aparecem no filme.

A atriz declara para a Sight & Sound: “Todas as vezes que pessoas trans são representadas nos filmes ou na TV, nós somos espetáculos cômicos ou alvos de compaixão, e não seres humanos dotados de nuances, talento e dignos de respeito. As pessoas não querem ver homens e mulheres trans que não estejam pedindo esmola ou dançando. Eu espero que, quando as pessoas assistirem a Joyland, consigam olhar para nós – pessoas trans – como verdadeiramente somos. As pessoas que feriram a mim e à minha família, espero que o filme as faça mudar de ideia.”

Quanto à expressividade cinematográfica, Saim Sadiq demonstra inspiração, segurança e equilíbrio admiráveis, ainda mais considerando-se que é o primeiro filme em longa-metragem do jovem diretor. O enquadramento em 4:3 destaca as figuras dos personagens e seus dramas, deixando dentro do plano apenas o que é essencial, sem abandonar a poética específica do cinema: são ricas as cores, a profundidade de campo e os emolduramentos internos ao quadro que posicionam os personagens – batentes de portas, janelas, linhas de paredes.

Joyland é um filme muito bem realizado, sensível e necessário. A sua temática social e política se encontra perfeitamente integrada ao desenvolvimento da narrativa e dos personagens; com isso, está anos-luz de distância de obras em que a “mensagem” sufoca todo o resto. Retomando a citação de Fahrenheit 451 do começo desta resenha, Joyland oferece, acima de tudo, uma experiência para o espectador. E, a partir dessa experiência, ficará o convite para a tranformação de pensamentos e de ações, como quer Alina Khan.

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