In Water

40th Jerusalem Film Festival

Preciso confessar uma coisa: não sou fã do cinema de Hong Sang-soo. O leitor ou leitora irão se espantar: “Mas como assim? Alguém que se diz cinéfilo e que julga escrever crítica de cinema admite não ser fã de Hong Sang-soo?!” Pois é. Mas, antes que me cancelem, tentarei me justificar: para mim, Sang-soo é daqueles artistas cujas marcas estilístico-autorais mais parecem tiques, reproduzidos ad nauseam com ínfimas variações e que serão invariavelmente aplaudidos com fervor pela massa de cinéfilos, críticos, jurados de festivais. Nisto, vai também a minha crítica ao culto que se formou em torno do diretor.

Sei que essa acusação pode, em princípio, ser feita a muitos mestres inquestionáveis do cinema clássico, a começar por Ozu. Por isso, prossigo com minha justificativa. Aquilo que nos grandes mestres é uma forma acabada, conquistada, em Sang-soo me parece mais exercícios, rascunhos, estudos: a produção prolífica do cineasta testemunha a favor dessa suspeita. É claro que não existe nada de errado em um artista à procura de sua própria alma, sua voz, sua expressão. E nisto, já é possível produzir obras belíssimas. Absurdo talvez seja alguém dizer-se completo, pleno. Mesmo assim, acho que os filmes de Sang-soo são elogiados com um viés equivocado.

Elogia-se Sang-soo como um mestre (=Ozu, Kar-Wai, King Hu), quando, na verdade, ele é nada mais, e nada menos, que um aluno bastante aplicado (=Joon-ho, Kitano). Acredito que, estabelecidos esses parâmetros, a obra do cineasta sul-coreano possa ser melhor apreciada, sem “hate”, mas também sem “babação de ovo”. Dito isto e pensando nos filmes de Sang-soo como estudos para uma grande tela que ele – talvez, um dia – pintará, creio que, em seu trabalho investigativo da vida, do ser e da arte, ele já consiga alcançar certas pequenas epifanias que, no meu ver, constituem o melhor do seu cinema.

É preciso muita paciência, muitos planos fixos e longos, para que aconteçam tais revelações. Mas Sang-soo sabe o que procura. Todo o resto do filme é, em si, meramente acessório; serve apenas para que se possibilite o nascimento desses momentos epifânicos, como o trabalho paciente de um jardineiro que rega uma muda. Temos epifania, por exemplo, em On The Beach at Night Alone (2017), no instante em que o filme transita entre mãos que separam feijão carinhosamente e mãos que acariciam uma flor no jardim; ou em The Woman Who Ran (2020), quando a câmera dá zoom em um gato que surge no plano de fundo, após esse mesmo gato ter sido assunto de um diálogo tenso entre duas pessoas.

In Water apresenta dois momentos como esses. No primeiro, o protagonista, jovem ator que está para começar a rodar o seu primeiro filme como diretor, mas ainda não possui roteiro, nem planejamento algum de produção, engaja-se em diálogo com uma catadora voluntária de lixo na praia; esse diálogo fará o jovem definir muito do filme que fará, além de repensar profundamente sobre sua própria vida e o seu próprio ser. Mesmo assim, Sang-soo não oferecerá a ele redenção de sua crise existencial, e aqui chegamos ao segundo – e maior – momento epifânico do filme, quando o jovem cineasta decide “ensaiar” o final do seu filme, também na praia, com as duas únicas pessoas que até então tinha recrutado: uma atriz e um operador de câmera.

Nesta cena final, ganha expressividade única o uso proposital de uma fotografia de baixa resolução por Hong Sang-soo no filme todo, o que até então poderia ser interpretado como um maneirismo estético-experimental. Penso que a duração curta do filme (60 minutos) também contribui para o efeito dessa “chave de ouro” – essa duração, aliás, é a ideal para os filmes-exercícios do diretor. É importante dizer: essas epifanias de Sang-soo não têm nada de edificante; às vezes, sequer reconfortante. Chamo-as de epifanias em um sentido rigorosamente materialista, fenomenológico: desvelam aspectos do ser e do mundo que, geralmente, passam despercebidos de olhares automatizados. Não é outra a função da arte.

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