40th Jerusalem Film Festival
Em certo trecho de Esculpir O Tempo, o monumental livro de teoria cinematográfica / biografia / manifesto estético de Andrei Tarkovski, lemos sobre o que ele chama de articulações poéticas no cinema. Para o diretor de O Sacrifício (1986), a lógica da poesia na organização da narrativa é mais adequada à Sétima Arte do que o andamento linear e lógico-causal do enredo. Mas o que são essas “articulações poéticas” propriamente ditas? Elas podem se compor de associações puramente automáticas, ou de reações emocionais imprevistas, ou ainda de metáforas, alegorias, símbolos cujos referentes estejam profundamente enterrados no inconsciente individual ou coletivo, ou no cosmo, ou ainda no metafísico. De qualquer maneira, a lógica da poesia é a analogia: uma lógica analógica.
O cinema de Alice Rohrwacher anima-se dessas mesmas articulações, no que muitos entendem que sejam seus aspectos “mágicos” – na verdade, mais próximos de um realismo mágico, uma vez que a cineasta italiana aproveita a tradição de temas sociais neorrealistas. No entanto, o mágico em Rohrwacher é mais do que dados sobrenaturais colocados em cena – às vezes, esses dados sequer estão lá, ou são postos de modo insoluvelmente ambíguo. A poesia da diretora está nas articulações entre cenas, sequências: quando esperamos que o filme realize uma inferência perfeitamente encadeada com o desenvolvimento puramente lógico do roteiro, Alice Rohrwacher aparece para nos lembrar de que ela está antes escrevendo um poema audiovisual do que um conto.
E quando acharmos que domesticamos e previmos o pensamento poético da cineasta, lá estará ela para nos arremessar ao chão novamente. Assim, La Chimera (2023) é um filme que desafia pensamento, emoção, sensação e intuição do espectador, tanto ou mais do que Lazzaro Felice (2018), seu longa anterior. A história é a de Arthur, um pobre-diabo que vive de roubar artefatos arqueológicos de sepulturas da época dos Etruscos (cerca de 2.500 anos atrás), junto de seus amigos. Mesmo depois de cumprir pena na cadeia e de conhecer a jovem e honesta “Itália” (interpretada pela brasileira Carol Duarte, de A Vida Invisível), por quem se apaixona e que se apaixona por ele, Arthur não desiste da vida no crime.
Seus mergulhos estabanados e grosseiros em catacumbas milenares que escondem tesouros artísticos de valor inestimável (que serão depois vendidos a ricaços não menos grosseiros) serão pontuados pelo trauma da morte de outra moça que ele amava, Beniamina, sobre a qual pouco sabemos. Mas não haverá alívio ou redenção possível para Arthur, a não ser, talvez, uma pseudo-semi-redenção poética e um tanto irônica que mal servirá de consolo ao espectador. No entanto, é exatamente essa a articulação difícil tecida por Rohrwacher: é inesperado o elemento “sobrenatural” e mitopoético do encerramento, de um ponto de vista lógico; mas a revelação é evidente: o lírico prevalece por sobre o narrativo.
Mesmo assim, o mágico, o poético, não são de todo imprevisíveis: estão lá desde o início, na habilidade sobrenatural de Arthur em encontrar tesouros arqueológicos sob a terra, em sua relação íntima com o subsolo – símbolo do “subconsciente” (no caso dele, atormentado por sonhos de sua amada morta, como em Poe); relação íntima e sobretudo tensa com o subterrâneo: ele ama o ctônico, mas também o violenta em seus roubos – exceto, em parte, no roubo da estátua da deusa (a qual ele compreende bem, como se estivesse em comunicação com ela, que “não é para os olhos dos mortais”), o que, ainda assim, não é suficiente para que ele corrija seus caminhos. La Chimera é um filme muito belo e condescendente em sua humanidade; mas, por isso mesmo, é bastante triste, trágico, indissolúvel.
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