Banel et Adama

40th Jerusalem Film Festival

Vou tentar organizar a resenha de Banel et Adama (2023, França / Senegal / Mali / Qatar), longa de estreia da cineasta Ramata-Toulaye Sy, em torno de uma só imagem, que achei a mais poderosa do filme. Trata-se de uma tempestade de areia massiva, na savana africana, que engole impiedosamente tudo por onde passa – você, caro leitor / leitora, saberá reconhecer a potência dessa imagem ao vê-la, quando assistir ao filme.

Essa imagem é importante não só pela sua própria força visual avassaladora, quase um horror cósmico, mas também pelo significado que tem dentro do filme, ao condensar o duplo registro no qual Ramata-Toulaye Sy trabalha: o Mito e a História. Explico. Banel et Adama conta a história de um jovem casal, Banel (Khadi Mane) e Adama (Mamadou Diallo), profundamente apaixonado, que vive em uma idílica aldeia de cultura bastante tradicional, conservadora.

Adama é nomeado chefe da comunidade, mas se recusa a assumir o cargo: prefere dedicar-se ao início de sua vida conjugal com Banel. Então, a região começa a passar por um longo, aparentemente interminável, período de seca, como nunca antes (efeito do aquecimento global). Animais e crianças são as maiores vítimas; de resto, impera a fome e a desesperança. Banel se recusa a aceitar a gravidade da situação (o velho negacionismo), mesmo pressentindo que a seca talvez seja castigo divino pela recusa de Adama em assumir sua responsabilidade patriarcal.

Banel exige que Adama prossiga, a todo custo, na construção da residência do casal, mesmo sobre um solo cada vez mais arenoso – o que impossibilita, é claro, qualquer edificação. Ao mesmo tempo, a desejada gravidez (e necessária, segundo as tradições da comunidade) não ocorre, o que leva Adama (também segundo a tradição) a contrair uma segunda esposa, com fins procriadores. Como uma Medeia africana, Banel, então, desafiará Adama, a comunidade, os elementos e a própria divindade, em sua obsessão de pessoa “traída”.

A tempestade de areia trará uma cena que representa, factual e simbolicamente, o enfrentamento das forças cósmicas por Banel. Forças cósmicas, mas, ao mesmo tempo, históricas: efeitos do aquecimento global. Junte-se isso ao fato de o filme ser narrado no tom fabulístico dos griots (aedos da África subsaariana que preservam e transmitem os mitos da comunidade), e teremos a mistura poderosa entre Mito e História de que falei no começo da resenha.

Esse tom mitopoético da narrativa, o ritmo cadenciado da montagem, junto da fotografia ampla, com bastante contraluz e cores vivas, podem fazer o espectador lembrar-se de Terrence Malick. Porém, acredito que Banel et Adama esteja mais próximo de referenciais africanos, como os clássicos Fad’jal (1979, de Safi Faye) e Yeelen (1987, de Souleymane Cissé). A dimensão mítica ainda é reforçada pelo nome Adama (em Hebraico = “terra”; daí, Adam / Adão = feito de terra, o primeiro homem, desobediente, punido com a Queda do Paraíso).

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