40th Jerusalem Film Festival
Antes de partir para os longas-metragens, a cineasta estadunidense A.V. Rockwell realizou uma série de 10 curtas-metragens chamada Open City Mixtape, que estão atualmente em exibição na plataforma de streaming The Criterion Channel. Recomendo, em especial, The Dreamer (2012) e B.L.B (2014). Ambos expressam bem a proposta cinematográfica e social da diretora, prenunciando em grande parte o seu primeiro longa, A Thousand and One (2023).
A.V. Rockwell pertence a um tipo especial, e raro, de artista: ela é daqueles artistas que fazem uma opção preferencial pelos marginalizados, pelas camadas mais excluídas do sistema econômico, político, social, enquanto recorte temático e expressivo de sua obra. Uma escolha assim traz diversas armadilhas, das quais poucos conseguem – ou querem – se esquivar; mas Rockwell conhece o terreno onde pisa e pisa com firmeza e cuidado.
O trabalho dela não é o de uma “cosmética da fome”, uma estetização da miséria (abuso estético) que visa nada mais do que o lucro (financeiro e simbólico, em termos de prestígio) do próprio artista. A.V. Rockwell não é Sebastião Salgado. Por outro lado, a cineasta não é partidária da “pornomiséria”: não trata o sofrimento humano como fetiche, sob o disfarce de denúncia social. Por fim, Rockwell não faz filmes “de tese”: seu viés é antes artístico do que científico-documental.
No cinema contemporâneo, o trabalho de A.V. Rockwell irmana-se ao de Khalik Allah, fotógrafo e cineasta de Nova York que também prefere os marginalizados, registrando-os e, sobretudo, dando imagem e voz para que estes se expressem em obras de um profundo senso poético e humano, como o longa monumental I Walk On Water (2020). As assinaturas estilísticas de Allah e Rockwell são bem diferentes, mas creio que o olhar social de ambos, agudo e lírico, basta para aproximá-los.
A Thousand and One venceu o grande prêmio do júri em Sundance, este ano, e traz a história de Inez de la Paz (Teyana Taylor, cuja atuação merece todos os prêmios que puder abocanhar), uma jovem mãe solteira, afrodescendente, que precisa lutar contra tudo e contra todos para conseguir criar o seu filho Terry (interpretado, na adolescência, por Josiah Cross, em um trabalho também merecedor de prêmios), principalmente mantendo-se perto dele – o que é mais difícil.
O cenário é a da profundamente violenta e desigual Nova York entre os anos 1990 e 2000. Trata-se de um drama intenso, muitas vezes visceral, com aquele furor de significar que é típico em cineastas estreantes; mesmo assim, equilibrado na estrutura e no tom, qualidade de cineastas mais experientes, maduros. A sugestão fabulística presente no título, longe de prender o filme em categorias didático-moralizantes, apenas faz por amplificar suas verdades humanas.
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