40th Jerusalem Film Festival
Gosto de pensar na ideia de que cada crítico tem um tipo de cinema favorito, mantido à cabeceira do seu coração. Sim, é uma preferência de ordem mais emocional do que racional, estética, teórica, “profissional”. A experiência e o testemunho ensinam que tal escolha não se organiza, necessariamente, em torno de um gênero já fixo, estável. Mas também não gosto do ar vago e genérico que a palavra “tipo” empresta para essa ideia que, para mim, é tão especial.
Por isso, prefiro usar o termo “família”. Sim, gosto de pensar que cada crítico tem uma família de filmes e de cineastas favorita, mantida à cabeceira do seu coração. O poeta Murilo Mendes se referia às suas influências (literárias, intelectuais) e, mais do que influências, almas com as quais ele se identificava profundamente, e que muito contribuíram à formação integral dele, como a sua “família sobrenatural”. Trago esse conceito, inteirinho, até a minha vivência de cinema.
Tudo é uma questão de recorte, é claro. E a noção de família sobrenatural enfeixa cineastas que, sob certos recortes, têm pouca ou nenhuma familiaridade entre si. Mas, sob outros, poderão sim constituir um belo time. Assim, a família cinematográfica com a qual eu mais me identifico, a qual mais me inspira como crítico e mais me comove como ser humano, compõe-se de um grupo bastante restrito de diretores e diretoras que eu chamo de “ex-anjos”.
Por que ex-anjos? Tomo emprestada a dedicatória que Wim Wenders faz, no final de Asas do Desejo (1987), a cineastas que ele denomina como former angels: Yasujiro Ozu, Andrei Tarkovski, François Truffaut. Lembremos que a obra-prima Asas do Desejo trata, particularmente, de um anjo que abdica de sua condição imortal, incorpórea e celestial, para viver a grande aventura (e a desventura) do ser e estar no mundo, incluindo o amor carnal.
Aceitando a sugestão de Wenders, adiciono à família dos ex-anjos: Albert Lamorisse, Jacques Tati, Abbas Kiarostami, Ingmar Bergman, Alain Resnais, Agnès Varda; e, mais recentemente, Alice Rohrwacher e Kelly Reichardt. Esses homens e mulheres são todos artistas dotados de uma sensibilidade humana especial, nos temas e nos estilos, mas sem excessos de condescendência e sem desprezar os dados históricos, políticos, sociais.
Penso que esses cineastas são, antes de mais nada, curiosos. Como quem investiga o mundo e o ser pela primeira vez, em comunhão com o mundo e com o ser. Esse vivo interesse dança, com desenvoltura, entre pólos opostos: às vezes, com aquela alegria de viver das mais singelas (jouie de vivre); outras, refestelando-se no mais tenebroso niilismo. Mas todos fazem filmes muito bonitos, que nos ajudam a viver e nos dão orgulho de pertencer à espécie humana.
Essa visão de mundo, naturalmente, terá um efeito estilístico muito marcante, com escolhas formais variadas; mas todas bastante expressivas, dotadas de uma harmonia instigante com os seus conteúdos, as quais vão da imagem-tempo deleuziana (mal resumindo: planos longos, câmera fixa) aos filmes-ensaios de Agnès Varda. O cinema dos former angels não poderia configurar um gênero, mas quem sabe uma escola?
Enfim, todas essas características nós encontramos em forma exemplar nos filmes de Kelly Reichardt, especialmente o mais recente Showing Up (2023). É um daqueles longas cuja sinopse é muito simples, elementar; talvez, mal se possa dizer que tenha um enredo, uma intriga no sentido mais tradicional do termo. O filme vai sendo cozinhado em fogo baixo, às vistas do espectador esfomeado, à espera de migalhas de drama, de épica. Mas o que Reichardt mais oferece é lirismo.
É a história de Lizzy (Michelle Williams), uma artista já nos umbrais da meia idade, às vésperas da primeira grande (grande?) exposição do seu trabalho. Como a vida acontece enquanto fazemos planos, esses são dias em que Lizzy terá que lidar com as mais variadas demandas e pequenos conflitos avassaladoramente prosaicos, quase ridiculamente prosaicos, vindos de amigos, colegas de trabalho, família, até mesmo um pombo resgatado com a asa quebrada.
E nisto o filme se desenrola e encerra. Sem mais. Sem plot twists, sem tragédias, sem punch line (exceto, talvez, uma sombra de punch line lindamente poética na última cena). Nada mais, e nada menos, do que um recorte da vida cotidiana, sem enfeites literários, dramáticos ou cinematográficos. O cinema precisa ser mais do que isso? O leitor ou leitora poderá dizer: “mas isto é o neorrealismo de Zavattini, é dogma 95…” Não acho.
Porque ambos os movimentos possuíam uma agenda muito específica, militante, combativa, um programa calcado em referenciais teóricos sofisticados. Não detectamos nada disso em Kelly Reichardt. Showing Up é de uma simplicidade e humildade francas. É um filme que se apresenta de cara limpa, dando a cara a bater. Logicamente, isto também é efeito de elaboração estética, de uma proposta artística da diretora.
Não podemos continuar sendo romanticamente ingênuos a ponto de achar que arte é fruto puro de lampejo de inspiração. Mesmo as formas aparentemente mais simples, despojadas, “naturais” escondem uma reflexão e um trabalho árduo, coisa que o filme expressa bem, ao focalizar o processo de construção (literalmente, construção) de objetos de arte, de Lizzy e de outros artistas, com encantamento singelo: telas pintadas, esculturas, instalações.
Mesmo assim, Showing Up assoma como uma obra única em que a arte e a vida (a vida do artista) se interpenetram uma pela outra sem o menor glamour (o fetiche pela arte-mercadoria e pela persona do artista, igualmente mercadoria) e sem a menor afetação (estética, intelectual). É um filme regido pela candura das crianças, dos animais, das criaturas de coração puro.
No fim, toda esta resenha nada mais é do que racionalização que atenta contra a alma deste filme. Quanto à alma do espectador, este deverá desarmá-la antes da exibição, para melhor fruir as experiências, sensações e sentimentos que Reichardt nos propõe. Nada precisa ser dito, explicado.
Pois Showing Up se condensa inteirinho em uma fala lindamente simbólica, dita em referência escarninha (aqueles de coração contaminado por este mundo caduco, nas palavras do poeta Drummond) contra Lizzy, para atingir, ridicularizar, humilhar e, acima de tudo, expôr publicamente, entre risos:
“She took the pigeon to the vet! She thinks the pigeon is stressed out!”
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