40th Jerusalem Film Festival
Existem filmes que parecem fazer o chão sumir sob nossos pés. Por “nossos”, eu me refiro a vivências histórico-sociais específicas; por exemplo, o lugar histórico ocupado por homens cis e heterossexuais, e vivências comuns que são possibilitadas por esse mesmo lugar histórico. São filmes que testam os limites da nossa concepção de mundo, de nós mesmos e dos outros (no caso, das outras, as mulheres).
How to Have Sex (Reino Unido / Grécia, 2023), primeiro longa-metragem de Molly Manning Walker, vencedor do prêmio Un Certain Regard em Cannes neste ano, é um filme que não me parece feito para – ou pensando em – aquele tipo de misógino clássico, descarado, grosseiro. Nesta temporada de 2023, o blockbuster Barbie, da Greta Gerwig, já aponta sua metralhadora satírica e atira impiedosamente contra esses zés-ruelas.
Walker vai focalizar outro ponto dessa problemática, um ponto mais sutil, que passa muitas vezes despercebido ou subestimado, e que é até mesmo contraditório, mas não menos grave: o homem “normal” (apenas no sentido de que não é um sócio-psicopata violentador serial de mulheres, da estirpe de um Harvey Weinstein), um homem semi-educado inclusive em termos de consentimento sexual; no entanto, o diabo reside neste “semi”.
How to Have Sex inicia como as clássicas comédias de adolescentes em spring break, nas quais o ato sexual – particularmente a perda da virgindade – é, acima de tudo, signo de autoafirmação e pertencimento: um rito de passagem completo. São assim filmes que vão de Porky’s (1981, Bob Clark) e Private Resort (1985, George Bowers; este, quase uma pornochanchada) a American Pie (1999, Paul e Chris Weitz) e Superbad (Greg Mottola).
Mas aí já começa a primeira diferença, trazida por Molly Manning Walker: as meninas / mulheres também passam por essa “fase”, também buscam sexo ativamente, como autoafirmação e pertencimento da maneira mais adolescente possível. Isto impede que o filme se reduza a categorias sociais deterministas, a estereótipos (quaisquer que sejam), ao tratar de personagens e situações. Esse cuidado torna o filme muito mais arejado, ao contrário de narrativas “de tese”.
No enredo, acompanhamos Tara (nome sugestivo, interpretada pela ótima Mia McKenna-Bruce), Skye (Lara Peake) e Em (Enva Lewis), três amigas britânicas em viagem de férias até um resort grego, enquanto esperam as notas das provas que lhes possibilitarão (ou não) ingressar na Universidade. O resort é uma “balada” 24 horas pensada para adolescentes na mesma situação das três amigas: muita música, muita bebida alcoólica, muita libido e “pegação”.
Lá, elas conhecerão um grupo de três amigos: os meninos Badger (Shaun Thomas) e Paddy (Samuel Bottomley), e a menina Paige (Laura Ambler). Naturalmente, os interesses e os pares não demorarão a se formar. Dentro do núcleo masculino do filme (sem maiores spoilers), a diretora colocará as questões mais difíceis: em resumo, meninos e meninas passam por essa intensa fase de descoberta sexual, libido hipertrofiada e autoafirmação (para si e perante o grupo).
Mas, para elas, será tudo ainda mais difícil, doloroso e traumático, por causa da velha mentalidade patriarcal, papéis tradicionais de gênero e cultura do estupro (particularmente, na percepção de que consentimento é algo desnecessário, acessório, ou “implícito”). A cineasta nos mostra que o homem, às vezes, possui certa noção de consentimento e da importância do prazer sexual feminino. Mas essa semi-noção ainda não é suficiente para evitar situações de abuso.
O filme caminha, com firmeza, na linha tênue que separa o ato sexual e a violência sexual. Linha essa que é muito mais difícil de ser percebida, por homens e até mesmo por mulheres, do que aquela imagem típica de abuso sexual (o estuprador mascarado à espreita em uma rua escura, ou um Harvey Weinstein, para citar mais uma vez). No entanto, essa linha tênue é muito mais comum do que se pensa e caracteriza muito das vivências sexuais de meninos e meninas, homens e mulheres.
Assim, o título How to Have Sex é ironicamente ambivalente e já carrega, em si, a maior qualidade do filme: adolescentes (especialmente meninos, mas também meninas) não sabem como fazer / conseguir fazer sexo, porque não sabem como “conquistar” parceiros(as), e, quando conquistam, não sabem o que fazer depois: todo o ato sexual é vergonhosamente canhestro e estabanado. É a dimensão “american pie” do filme.
Mas, ao mesmo tempo, adolescentes (agora exclusivamente meninos) não sabem como fazer sexo, porque não sabem o que significa consentimento, em toda a extensão do termo. Porque a nossa sociedade, ainda fundamentalmente patriarcal e aguerridamente misógina, não sabe o que significa consentimento. Não quer saber. É a dimensão #metoo do filme.
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