Past Lives

40th Jerusalem Film Festival

A primeira cena de Past Lives (EUA / Coreia do Sul, 2023), primeiro e arrebatador longa-metragem da dramaturga, agora cineasta, Celine Song, traz o triângulo amoroso que protagoniza o filme conversando animadamente em um balcão de bar, observados à distância por frequentadores do mesmo estabelecimento, os quais não vemos (câmera subjetiva), mas que tecem, entretidos, comentários e especulações: Quem é par de quem? Quem está “segurando a vela”?

De repente, a protagonista Nora (Greta Lee) flagra os voyeurs, encara fixamente o seu olhar perscrutador e lança-lhes um sorriso ambíguo: por um lado, altivo e sarcástico; por outro, malicioso e sedutor; convidativo. Sorriso de Monalisa. A maior parte do filme será narrada em flashback, até chegarmos de volta àquele momento no bar, após o qual o filme concluirá sem muita demora, em uma cena que é, essencialmente, a antítese da imagem inicial (sem maiores spoilers).

Essa introdução em media res assenta os trilhos sobre os quais o longa de Celine Song rodará. Vinda da literatura e do teatro, a diretora e roteirista sabe o poder da identificação catártica, das instigantes charadas oferecidas pela vida privada e pelas relações amorosas à curiosidade pública, charadas essas que criaram verdadeiras indústrias em torno de romances, dramas, radionovelas, novelas, filmes e seriados: a toda-poderosa indústria cultural em seus quase 200 anos.

O romance é a epopéia da civilização burguesa, registrando e perpetuando os seus mitos mais valiosos. Não é à toa que a história de amor que abastece Past Lives arvora-se no conceito budista do In-yun: a reencarnação aplicada às relações amorosas, particularmente à predestinação amorosa. É um prato cheio para a nossa fome de amor romântico (sim, o velho Romantismo do século XIX, fulcro mais profundo da visão de mundo pós-Revolução Francesa).

Essa perspectiva do olhar externo organiza, de maneira sutil, o filme inteiro: a última cena será filmada em plano geral, como se estivéssemos bisbilhotando os personagens centrais do outro lado da rua. Essa conexão entre o enquadramento do início e do final do filme fecha-o em um círculo acabado, revelando uma auto-consciência aguda que Celine Song tem de sua história e dos meios expressivos com que conta essa mesma história.

Pequeno spoiler: a porta que se fecha e encerra Past Lives tem o poder sugestivo da última imagem de O Poderoso Chefão (1972, Francis Ford Coppola) e de Rastros de Ódio (1956, John Ford). O voyeurismo folhetinesco tem um limite, após o qual impera não mais o enigma que pede desenlace, mas o mistério perene, inescrutável. A ordem do privado. É o oposto do “reality show”, que reifica e fetichiza pessoas, experiências e emoções para aplacar nossa tara pelo consumo de vida.  

Aqui reconhecemos o toque pessoal de Celine Song: a fórmula é a do folhetim (mulher na faixa dos 30 anos que vive um casamento sereno, prosaico, sem paixão, mas com devoção amorosa, reencontra a sua grande paixão da infância e adolescência, paixão visceral, nunca realizada). Mas a condução explora os sentimentos dos personagens – e do espectador – apenas na medida franca em que esses mesmos sentimentos são frutos existenciais da grande aventura da vida.

Assim, Past Lives não é um frio tratado de educação sentimental, uma “denúncia” da instituição burguesa do matrimônio; mas tampouco explora ad nauseam a carga emocional dos seus personagens e suas histórias individuais. O filme respeita os personagens; consequentemente, o espectador identificado com eles. Na abertura, temos um olhar direto e convidativo da protagonista; no desfecho, temos uma porta que se fecha, deixando-nos de fora. Não poderia ser mais comovente.

Deixe um comentário