40rd Jerusalem Film Festival
Disco Boy (França / Itália / Bélgica / Polônia, 2023, dir.: Giacomo Abbruzzese), vencedor do Urso de Prata em Berlim, tenta equilibrar-se sentado no ombro de gigantes: Beau Travail (1999, Claire Denis), Apocalypse Now (1979, Francis Ford Coppola), Full Metal Jacket (1987, Stanley Kubrick), sem a pretensão descarada de ser um pastiche, o que já lhe testemunha a favor.
O filme conta a história de Alex (Franz Rogowski), jovem bielorusso que emigra ilegalmente para a França. Chegando lá, é apanhado pelas autoridades, as quais, com muita malandragem e sem surpresa alguma, fazem a ele uma oferta irrecusável: se ele se alistar na Legião Estrangeira e cumprir bem com o papel de bom soldado, o Estado francês lhe concederá cidadania.
Após o tipicamente abusivo treinamento, Alex é enviado para o continente africano, com a missão de desbaratar uma organização “terrorista” local. Então, o destino o colocará frente a frente, no campo de batalha, com Jomo (Morr Ndiaye), seu doppelgänger do “terceiro mundo”. O que acontece depois é uma tentativa canhestra de emular David Lynch usando temperos decoloniais.
A favor do longa, temos seus conteúdos políticos irrepreensíveis; pelo menos, aqueles que se colocam em forma mais consciente e manifesta, como a questão da imigração, o militarismo e os sempiternos efeitos do colonialismo – explicarei melhor adiante. Também é divertida a breve sátira que Abruzzese faz do “jornalismo” de portais online “descolados” do tipo de Vice.
A atmosfera psicodélico-surreal expressa sobretudo na fotografia e na montagem é também ponto positivo, em princípio. Mas aí começam os problemas. O diretor erra a mão no tom “viajandão”, e o filme acaba se cobrindo de um ar mais cafona do que contracultural. E de um cafonismo que revela um olhar irremediavelmente eurocêntrico – o dado político implícito que atua contra Disco Boy.
Pretendendo criticar a abordagem no estilo Vice, o filme acaba reproduzindo e reforçando seus pressupostos: a fé no progressismo fácil de uma cultura jovem ocidental hype e suas manifestações boêmias frívolas (música eletrônica, luzes neon e ambientação clubber), como se o encontro do negro africano e do branco europeu em uma pista de dança (europeia, é claro), ambos “fritando” sob o conveniente efeito empático de ecstasy ou DMT, pudesse trazer paz à Terra e compensação por séculos de imperialismo e encontros no campo de batalha.
Junte-se a isso o incômodo e pouco desculpável exotismo com que o filme observa a África e os africanos, apesar das melhores intenções do cineasta (ou justamente por causa delas), e teremos o caldo final pouco digerível de Disco Boy. Enfim, você, leitor ou leitora, quer ver um filme jovem, descolado, cheio de energia e engajamento decolonial, e o que é melhor: a partir de uma ótica africana? Então veja Neptune Frost (2021, Saul Williams e Anisia Uzeyman).
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