El Conde

A alegoria é um recurso expressivo usado preferencialmente em períodos de forte trauma coletivo, de dissociação social, como já muito bem estudou Walter Benjamin no seminal Origem do Drama Barroco Alemão. O discurso alegórico nasce de um senso da História como catástrofe, isto é, uma História condenada à reposição do erro, o oposto da História positivista que ruma triunfante em direção ao progresso ou à revolução que apenas produz a necessária ruptura que abre espaço à marcha irrefreável para a Utopia.

É por isso que a alegoria é particularmente cultivada em sociedades curvadas sob o peso da tirania, para além da tática de angariar e difundir dissidência, escapando à repressão sob a capa de metáforas às vezes mais sutis, outras vezes flagrantes (os níveis de letramento da censura são, via de regra, baixos demais para filtrar analogias). Foi assim desde as clássicas Cartas Chilenas, poema do inconfidente Tomás Antônio Gonzaga, passando pelo Terra em Transe (1967) do Glauber Rocha, até este El Conde (2023), mais novo rebento do cineasta chileno Pablo Larraín.

Erich Auerbach, em Figura, critica o didatismo da alegoria, movida por esquematismos de fabulação que sacrificam a densidade do universo ficcional em função da mensagem a ser comunicada decodificando-se os elementos da narrativa. Por exemplo, é como se cada personagem, fala, situação ou objeto cenográfico só tivessem significado segundo a referência indireta que fazem ao mundo (real ou atual) para o qual o autor está de fato apontando. Isso remonta ao teatro alegórico medieval cristão e seus autos moralizantes, edificantes.

Muitos críticos têm feito essa mesma observação a respeito do filme de Larraín, e podemos concordar em certa medida. El Conde é um filme muito simples e direto na sua intencionalidade anti-autoritária, anti-fascista, apesar da sofisticação da fotografia em P&B de Edward Lachman. E isso pode influenciar na recepção, vide o sucesso de outras sátiras políticas recentes fortemente alegorizadas como Triângulo da Tristeza (2022, Ruben Östlund), O Menu (2022, Mark Mylod) ou Don’t Look Up (2021, Adam McKay).

A Netflix, que produziu o longa de Larraín, parece saber muito bem disso e querer capitalizar em cima: El Conde acaba de vencer o prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza este ano e já foi disponibilizado na plataforma de streaming. Mas não acredito que o furor alegorizante prejudique tanto a história de um Pinochet vampiro quanto prejudicou os filmes acima citados. Ainda mais se pensarmos que a alegoria está, aqui, indissociável de uma dimensão satírica – a qual eu acredito que seja a maior contribuição do filme de Larraín.

Por sátira, não devemos entender qualquer tipo de “leveza”, no sentido de um humor simpático ao personagem, que ameniza seu caráter e suas ações atrozes. A sátira é um procedimento crítico altamente corrosivo, utilizado com fins políticos desde a Antiguidade. É muito bem sabido que figuras autocráticas cultivam em torno de si uma imagem mítica, arquetípica. E a sátira ajuda justamente a demolir essas estátuas de areia nauseabunda, desvelando a pequenez, a boçalidade e o ridículo de todo tirano.

A tática é tão comprovadamente eficaz que pululam exemplos de personalidades autoritárias, de hoje e de ontem, que entram em verdadeiros surtos de histeria após tomarem conhecimento de sátiras que ridicularizam sua tara mesquinha por potência. Não existe nada mais frágil do que a masculinidade (tóxica). E repito: usar essa arma-espelho para desmoralizar fascistas não implica, automaticamente, uma postura leviana para com os crimes hediondos que cometeram e cometem. De forma alguma.

Por isso, é injustificável os ataques sumários (o “hate”) que o filme El Conde vem recebendo por parte de um público autoproclamado progressista. Na verdade, trata-se de um moralismo raso dos mais tacanhos, que deveria ser prerrogativa da (extrema) direita. Nas artes narrativas (literatura, teatro, cinema), é sabidamente obsoleta a exigência de que cada tema peça um tom ou registro “adequado”. É de pensar se esses guardiões do “bom tom” teriam lançado à fogueira O Grande Ditador (1940), de Charles Chaplin.

De qualquer maneira, El Conde não é O Grande Ditador. Parece possuir a pretensão de sê-lo; mas não tem, nem de longe, a mesma classe e a mesma sutileza – apesar da cinematografia exuberante. Como a maioria dos longas-metragens lançados diretamente no streaming, é um produto para consumo imediato, de apelo fácil, facilmente digerível e que produz rápida satisfação. Mas será logo esquecido. Apesar disso, é retumbante a marretada que Larraín dá para nos despertar para o senso de que História é catástrofe – repetidamente.

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