O motivo maior que inspira a filmografia de Kleber Mendonça Filho é nítido: a fenomenologia do pertencimento ao espaço, sempre um espaço desenhado mais pelas linhas concretas do ser-estar no mundo, do que um espaço concebido por formulações abstratas de nacionalidade, propriedade etc.
É lógico que essas últimas categorias costumam enformar as vivências que indivíduos e grupos têm do espaço; mas Kleber Mendonça Filho, como todo artista que visa à expressão da experiência humana, mais do que à sua rotulação, sabe bem onde precisa pôr o foco de sua câmera e não realiza filmes de tese – armadilha fácil.
Isso vale até mesmo para quando o diretor da ficção especulativa Bacurau (2019) realiza documentários, como podemos atestar ao ver Retratos Fantasmas (2023), que aborda transformações urbanas na cidade do Recife, particularmente na sua região central, com atenção especial às antigas salas de cinema “de rua”.
Talvez a alcunha de “documentário” não seja a que melhor descreva a forma deste filme: a presença viva do diretor como narrador, personagem e ponto de ligação vivencial com o espectador, no sentido mais puro do compartilhamento de experiências, coloca Retratos Fantasmas mais próximo do modo de operação do filme-ensaio.
Com o coração desnudado à lá Baudelaire, Kleber Mendonça Filho realiza o filme a partir de uma posição estrutural em que o seu próprio ponto de vista subjetivo – enquanto cinéfilo, mais do que cineasta – organiza suas observações e reflexões a respeito sobretudo da melancólica decadência e desaparecimento dos cinemas de rua.
É testemunho, mais do que tese. É memória, mais do que documento – sem querer diminuir o valor também documental dos registros. Tudo isso é ensaístico. Poderíamos também dizer que é uma crônica, em sua forma aberta de diálogo constante com o espectador, convidando-o a contrabalançar o vivido do diretor com o seu próprio vivido.
E é aqui que Retratos Fantasmas imprime o seu maior desafio, principalmente às gerações mais jovens da cinefilia: estará definitivamente extinta, ou em vias de extinção, a experiência coletiva do cinema nas salas de exibição, ainda mais naquelas cujas fachadas se abrem à rua?
É certo que a geração Z, ou mesmo os “millennials”, não terão a mesma quantidade de vivência do cinema de rua que tinha a geração X de Kleber Mendonça Filho (e minha). E não creio que isso possa ser usado para desqualificar sumariamente formas mais recentes da experiência cinematográfica (streaming, filmes em telas de smartphones etc.).
Mas em que medida é “natural” essa morte do cinema coletivo de rua, e em que medida precisamos resistir a ela, resgatando e preservando tanto quanto pudermos os dispositivos clássicos? Não creio que haja respostas fáceis para essa questão, tampouco devemos nos desgastar em posicionamentos sectários, reacionários. O convite é à reflexão.
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