Anatomia de Uma Queda (“Anatomie d’Une Chute”, França, 2023, dir.: Justine Triet) é o audiovisual que se enforma e alimenta do verbal. Mas não o verbal pensado a partir da palavra falada, como é o caso de Saint Omer (2022, Alice Diop); e sim o verbal pensado a partir da palavra ouvida.
Enquanto Diop disseca, em sua própria aula de anatomia, a produção do(s) discurso(s) enunciado(s) na arena pública de um tribunal dentro de um estado democrático de direito, Triet aponta a sua câmera-bisturi para os processos de escuta que validarão ou não esses mesmos discursos.
Todo o filme se estrutura em torno da escuta, em que impera a face silenciosa do interlocutor: o advogado de defesa que escuta sua cliente, o júri que o escuta no tribunal, a ré que escuta o promotor, o filho adolescente da ré que escuta a todos – é tudo o que ele pode fazer, cego desde a primeira infância.
Não é por acaso que o momento mais desestruturador do filme – que acarretará consequências imprevistas – é a escuta, no tribunal, de um “diálogo” gravado que se pauta pela recusa mútua de escuta: a discussão violenta entre a ré e seu marido, de cuja morte ela está sendo acusada.
Os limites da escuta talvez já tivessem sido anunciados logo na introdução do longa, pautada pela impossibilidade – físico-material – de escuta: a jornalista que não pode escutar sua entrevistada (a protagonista, escritora que se tornará ré), pois o marido desta colocou música em um volume de som ensurdecedor em outro cômodo da casa.
Acorrentados que estamos às vicissitudes do regime da escuta, perdemos acesso (direto) aos fatos, à realidade, à verdade. É por tais sendas que Triet envereda, conduzindo-nos por trilhas escuras em que não chega raio de luz solar algum, fazendo-nos desorientar por completo em um emaranhado de discursos.
Será Sandra culpada ou inocente? Não podemos saber. E, no fundo, não importa, porque, mais do que provar sua inocência, a luta de Sandra passa a ser para que seu filho não deixe de escutá-la, minimamente. Ao receber sua sentença, só podemos compartilhar do seu sentimento de alívio pelo fim do processo todo. Acabou.
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