Hannah Ha Ha

Existe um momento quase mágico nos filmes, em que se revela a franca adesão que o próprio filme, enquanto discurso narrativo, toma em favor de sua personagem central. Essa adesão cria não só o efeito de potencializar a experiência identificatória do espectador, como também carrega princípios éticos e morais em sua forma mais decantada, desatrelados de formulações histórico-políticas que abafam a natureza humana das ações, reações e relações.

Esse momento, quando bem manifesto em forma cinematográfica, ganha ares de uma epifania digna das grandes realizações artísticas. Hannah Ha Ha (EUA, 2022), longa-metragem de estreia dos diretores Joshua Pikovsky e Jordan Tetewsky, é dotado de um desses momentos. Nele, o filme cresce, agiganta-se de uma maneira que faz o espectador agradecer aos céus pela existência do Cinema e seu poder revelador – para não dizer redentor.

É uma cena em que Paul, um yuppie incorrigível que é irmão da protagonista Hannah, está na cozinha da casa dela participando de uma reunião online de “business”, cercado de apetrechos tecnológicos que conferem à sua figura um ar farsesco. Então, entra Hannah, vai até a pia e começa a cortar algumas cenouras, fazendo um barulho ínfimo que não irritaria as sensibilidades do roommate mais rabugento.

Mesmo assim, Paul começa a lançar até ela uns olhares de reprovação saturados de uma agressividade melindrosa que faz com que o espectador sinta ímpetos de fechar os olhos, para não testemunhar a humilhação que sofre Hannah. Esta, criatura cândida que é, não faz mais do que pedir desculpas e se retirar do ambiente. A câmera permanece fixa em Paul, e, poucos instantes depois, ouvimos o som alto do cortador de grama de Hannah no quintal.

Essa cena, aparentemente tão simples, possui duas camadas discursivas que se desenrolam em paralelo, no passo firme que esperaríamos de diretores experientes (o que atesta o talento de Pikovsky e Tetewsky). A primeira camada é a da identificação honesta com Hannah, a qual representa aquele tópos da personagem interiorana, aguerridamente agarrada à vida e aos valores simples da zona rural, surda ao canto de sereia da civilização cosmopolita.

Para além de uma abordagem histórico-política que poderíamos fazer dessa visão de mundo, principalmente dos seus elementos mais questionáveis (xenofobia, racismo, reacionarismo político), senda pela qual o filme não se aventura, é importante destacarmos o elemento de decência humana por trás desse tipo de personagem, no que diz respeito às relações familiares. Paul cumpre com não mais do que visitas protocolares à irmã e ao pai idoso.

Mas Hannah permanece lá, na mesma cidadezinha esquecida de fim de mundo em que ambos nasceram e cresceram. Ela não tem faculdade, não tem profissão, não tem “carreira”. Mas toca a sua própria vida de maneira perfeitamente funcional, possui uma relação de proximidade afetiva genuína com o pai e ainda cuida das necessidades dele. A humildade de Hannah é fabulística (para referência, leia o conto “O burrinho pedrês”, de Guimarães Rosa).

A segunda camada, derivada da primeira, é a ironia sutil, mas altamente corrosiva, com que o filme ataca Paul – pois a adesão a Hannah se coloca em uma dinâmica de oposição a Paul, ambos representando o velho par “natureza vs. cultura”. A cena que descrevemos é carregada não só de afeição pura dirigida a Hannah, mas também de um ar cômico, derrisório, que se evidencia na relação física entre Paul e os seus gadgets.

Esses apetrechos são quase como extensões do corpo de Paul, um corpo pelo qual ele nutre vaidade hipertrofiada, quase fetiche, o que dá à cena da cozinha (inclusive à punchline dela, com o barulho do cortador de grama) uma sabedoria farsesca que nos remete à de Jacques Tati (veja Mon Oncle – 1956; e Traffic – 1971). A cena seguinte, em que Avram (o pai) carrega os “gadgets” até o carro de Paul, sob a supervisão rigorosa deste, não é menos cômica.

O ponto de vista sarcástico que o filme assume quanto a Paul é manifesto de forma tão sutil que pode produzir a armadilha discursiva bastante interessante em que o espectador que, em princípio, identifique-se com o irmão de Hannah não perceba a sátira que o filme está fazendo dele (de Paul e do espectador que se espelha nele). Muitos não entenderão a beleza, a graça e o significado da cena da cozinha. Mas assim é a arte, assim é o cinema.

Hannah Ha Ha causou sensação em Sundance, ano passado. Atualmente, está disponível para alugar no YouTube (grátis para os assinantes do YouTube Premium), e gratuitamente no FreeVee e no Tubi (mas você vai precisar de um VPN conectado nos EUA para ver o filme em qualquer uma dessas plataformas). Nem pesquisei se já foi ou será exibido no Brasil, não quero ficar deprimido.

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