Sing Sing

Cinema é uma construção ilusória de espaço. Uma das primeiras aulas de alfabetização em linguagem cinematográfica é aquela que ensina como a montagem produz uma contiguidade artificial entre dois locais que, no mundo real, estão bem distantes um do outro – para não falarmos na edificação de espaços ou verdadeiros universos que simplesmente não existem no mundo material; ainda que, para a imaginação, tudo seja possível: “só não existe o que não pode ser imaginado”, já disse o poeta Murilo Mendes.

De qualquer maneira, mais do que dizer que todo espaço é preenchido de subjetividade, é pertinente dizer que todo espaço é assentado em subjetividade: na percepção, nas reações e relações estabelecidas entre o sujeito e o meio. Subjetividades enformam e sustentam toda arquitetura, física ou metafísica. E o cinema, enquanto arte visual, sempre foi e continua sendo veículo privilegiado para uma ambientação carregada de expressividade. Sing Sing (EUA, 2023, dir.: Greg Kwedar) realiza esse potencial como poucos filmes são capazes.

A força propriamente imagética do filme reside no contraste entre diferentes, às vezes opostas, construções espaciais, desde a primeira cena: vemos os presidiários no palco recitando Shakespeare – o teatro enquanto espaço centrípeto (no dizer de André Bazin), isolado do mundo exterior, flutuando em sua própria realidade sublime. Esse espaço, ainda que restrito (como a prisão), é signo maior de liberdade, a liberdade dentro do espaço interior e sem fonteiras da psique, da qual os presos tanto necessitam, à qual se apegam como uma tábua em um naufrágio.

Proscritos, eles não podem ser também degredados de suas próprias mentes, sonhos, esperanças, criatividade artística. Ninguém pode. Daí o humanismo franco e incondicional do longa de Greg Kwedar. Nos dias de hoje, pós-pandemia, falamos muito em “saúde mental”; não gosto do ar positivista de patologização do ser, da vida e do mundo que esse termo evoca, reduzindo o espírito humano a mero organismo cujo papel é ser nada mais do que funcional. Mas voilà! Que seja uma questão de saúde mental.

O filme começa com o palco teatral enquanto espaço irreal, onírico (signo de liberdade), mas, ao mesmo tempo, um espaço fortemente centrípeto e permeável ao olhar e julgamento do Outro (signo de cárcere). Então, a peça termina e precebemos (o filme se organiza em percepções progressivamente cultivadas) que aqueles atores são presidiários e estão voltando – sendo conduzidos – para as suas celas. É muito impactante esse contraste, expresso em um jogo simples de montagem, entre o espaço do palco e o espaço da prisão logo nos primeiros minutos.

A dialética entre espaços de cárcere e espaços de liberdade, entre espaços exteriores e espaços interiores (psíquicos), pontuará todo o resto do filme, com especial atenção para o espaço predileto do protagonista, visto por ele quase como um espaço sagrado: o pequeno canto do salão onde os atores se reúnem, no qual se localiza a única janela com um ínfimo recorte na grade de metal, o suficiente para passar uma mão e para que se contemple o mundo exterior – a floresta que circunda o presídio – sem o obstáculo visual das grades.

Não apenas o palco teatral é um espaço centrípeto, mas também o presídio como um todo, ironicamente nomeado “Sing Sing”: o filme não nos deixa ver nada, absolutamente nada, do mundo “real” exterior, da sociedade da qual aqueles homens foram exilados e para a qual eles nutrem desesperadas esperanças de retornar. O maxímo que vemos é a densa paisagem florestal que cerca a cadeia. Assim, é como se o filme se passasse dentro de seu próprio universo em suspensão: pocket universe, como se diz no jargão sci-fi.

A liberdade de fato, no mundo e na sociedade concreta, não aparece mais do que como uma promessa, vaga. Uma promessa de redenção quase metafísica, como se a própria vida e o mundo fossem nada além da prisão, e o mundo “exterior” fosse o mundo vindouro do Judaísmo, ou o Paraíso da Cristandade e do Islã. A conquista da liberdade, em Sing Sing, ganha ares de pura transcendência. E os ex-detentos que voltam para visitar ou conduzir seus companheiros recém-libertos possuem um ar de espíritos redimidos já alçados à condição de anjos.

Essa associação entre o teatro, a prisão e o mundo aparece declarada na citação que o personagem Clarence faz de Shakespeare, ponto nevrálgico do filme, em termos alegóricos:

“When we are born, we cry. Because we`re born to a stage of fools.”

Clarence recita essa passagem como motivo que fez com que ele procurasse participar do projeto teatral dentro da prisão, causando-lhe um insight irresistível a respeito de sua condição social. É em momentos assim, de pura epifania, que a Arte se paga.

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