Close Your Eyes

Em uma primeira camada, podemos falar que Close Your Eyes trata da memória. De fato, é o que mais aparece à vista. Mas, se olharmos mais de perto, veremos que outras questões estão fervendo no subterrâneo do filme de Víctor Erice. Questões essas que não deixam de se relacionar intimamente com a memória, mas que, mesmo assim, são questões que possuem um status mais fundamental.

Dentre estas, a que mais se sobressai e merece algumas palavras de consideração é a questão da identidade – ou identidades. Sem memória, identidade alguma se preserva; e, sem identidade, o que resta do ser? Calcinando lenta e longamente, Close Your Eyes é temperado por diversos momentos que aludem à premência da identidade, de processos de individuação e de dissolução do identitário.

O início do filme, que apresenta o seu protagonista (Julio Arenas, interpretado por Jose Coronado) como um ator – ou seja, alguém que vive de emular identidades alheias –, e que confunde deliberadamente, na encenação, as fronteiras entre o “real” (a história do ator Julio Arenas) e o “fictício” (o personagem que Arenas interpreta no último longa-metragem em que trabalhara antes de desaparecer), já atesta um viés pela identidade enquanto construção do real.

Identidade também está profundamente ligada ao nome, e o filme de Erice não perde oportunidades em apontar para isso, desde o seu começo, onde vemos, no filme dentro do filme, o personagem do ancião chamado Levy, o qual se apresenta como judeu sefaradita. Sabemos que identidade, particularmente a identidade nacional, é um conceito forçosamente maleável dentro do povo sefaradita, depois que foram expulsos da Espanha em 1492.

Sem contar aqueles que permaneceram, mas aceitaram se converter forçadamente ao catolicismo; ou ainda aqueles que aceitaram se converter à força ao catolicismo, mas mantiveram clandestinamente sua identidade e práticas religiosas judaicas (os chamados “marranos”). O Sr. Levy confessa que teve de mudar de nome e sobrenome muitas vezes – fato comum entre a população judaica historicamente perseguida na diáspora.

Mas o que causa estranhamento é o fato de o mais recente nome que ele adota ser um nome judeu (Levy, ou Levi) – um dos mais clássicos e prestigiosos nomes judeus: a tribo dos Levi era formada pelos assistentes dos sacerdotes (Cohen) no antigo templo de Jerusalém. É possível ver aí um intento de reapropriação de uma identidade que lhe fora roubada, assim como ele contrata Arenas para buscar a filha da qual fora alienado?

De qualquer maneira, o longo diálogo entre Levy e Arenas, que abre o filme, nos traz diversas e valiosas sugestões que amplificam os significados da história do próprio Julio Arenas, mais tarde chamado de Gardel – não é à toa que ele carregará, mesmo em absoluta amnésia e muitos anos depois, uma fotografia da personagem cujo resgate era a missão do seu personagem no filme que abandonara.

Enfim, o filme retira sua força dessa reflexão sobre a identidade e atravessa uma relação de contraste especular entre a história “fictícia” de Levy, sua filha e o personagem de Arenas, e a história “real” do próprio Arenas (e também da filha dele e do antigo diretor do filme, ambos procurando por ele). A cena mais epifânica do filme é aquela em que Gardel pergunta com desprezo: “O que é um nome?” Nome é tudo.

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