Zé do Caixão contra a ditadura militar
Olá, amigos e amigas das Sombras Elétricas! Neste Halloween, deixo com vocês um texto bastante especial, sobre o filme mais maldito do cineasta brasileiro mais maldito: Ritual dos Sádicos (ou “Despertar da Besta”, 1970), de José Mojica Marins. Falarei, principalmente, sobre as tensas relações entre esse filme e a censura da ditadura civil-militar brasileira de 1964-1985. O texto é baseado na minha dissertação de mestrado sobre o Zé do Caixão e foi publicado, originalmente, na Revista Cineplot, em 2020. Boa leitura!
Em 29 de junho de 1970, o filme Ritual dos Sádicos (sexto longa-metragem dirigido por José Mojica Marins e quarto a contar com a presença do emblemático personagem Zé do Caixão) foi apresentado pela primeira vez ao Serviço de Censura da ditadura militar que governava o Brasil, o qual decidiria pela liberação total, parcial, ou ainda pela interdição completa do filme para exibição comercial. Quem já viu esta obra-prima – e conhece um mínimo de História do Brasil – não terá dificuldades em entender por que os militares escolheram a terceira opção. Após insistentes pedidos de revisão, feitos pelos produtores, em processos que se arrastaram por mais de dez anos, Ritual seria finalmente autorizado somente em 1983 – sem, no entanto, encontrar distribuidores interessados: o filme continua inédito, até hoje, no circuito comercial das salas de cinema. É preciso resgatar a incrível história de sangue, suor e lágrimas deste pedaço único do nosso cinema.
Como surgiu
No louco ano de 1969, o cineasta e intrépido empreendedor de si mesmo José Mojica Marins teve a sua HQ mensal cancelada (“O Estranho Mundo de Zé do Caixão”, hoje raríssima, com texto de Rubens Francisco Lucchetti e arte de Nico Rosso). Precisando de dinheiro, Mojica aceitaria atuar em três filmes feitos por amigos: o western sertanejo O Cavaleiro sem Deus, dirigido por Osvaldo de Oliveira (que tinha sido assistente de câmera em À Meia-Noite Levarei Sua Alma); Audácia! A Fúria dos Desejos, de Carlos Reichenbach e Antônio Lima; e O Profeta da Fome, de Maurice Capovilla – os dois últimos são títulos importantes do Cinema Marginal, movimento que vê em Mojica um guru. No entanto, o autor de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver queria voltar a dirigir; para tanto, recorreria novamente aos amigos cineastas, que lhe doarão sobras de negativo de seus próprios filmes. Colaboraram Roberto Santos, Carlos Reichenbach, Maurice Capovilla e Rogério Sganzerla. Junto do diretor de fotografia italiano Giorgio Attili, seu parceiro usual, e do produtor egípcio George Michel Serkeis, Mojica consegue também um financiamento bancário para realizar o seu próximo longa, que será Ritual dos Sádicos. Serkeis era dono de uma pequena indústria têxtil no bairro do Brás (SP), onde também ficava o estúdio de Mojica. O egípcio já tinha sido responsável pela produção do último filme do cineasta até então, O Estranho Mundo de Zé do Caixão (1968). Quanto às fontes que teriam inspirado Ritual, tudo o que temos são depoimentos do próprio cineasta. De qualquer maneira, essas histórias ajudam a iluminar os elementos que fazem com que esse filme seja um inesperado ponto de ruptura na carreira do diretor. No catálogo da mostra retrospectiva de José Mojica Marins, realizada no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) em 2007, como comemoração dos 50 anos de carreira do cineasta, lemos uma entrevista, dada nos dias atuais, na qual o diretor explica o que o teria motivado a fazer Ritual dos Sádicos:
A ideia do filme [Ritual dos Sádicos] surgiu quando um dia fui à delegacia e de repente entrou uma mulher grávida. Os caras começaram a bater nessa mulher grávida porque ela era usuária de drogas. Depois a levaram, e eu peguei os meus guarda-costas, na época eu tinha guarda-costas, e mandei procurar, ver se achavam essa mulher. Mas ninguém a viu desde que ela foi presa no Primeiro Distrito, na praça da Sé. Fiquei puto e fui falar com as prostitutas do lado da delegacia, mas ninguém a viu. (PUPPO; AUTRAN, 2007, p. 25)
(…)
Eu vinha acostumado a fazer fitas de aventura, musical, terror, bangue-bangue, policial, mas dessa vez eu fiz uma fita que era revolta total. Nenhuma fita eu fiz com revolta, todas eu fiz com uma satisfação de estar fazendo um filme diferente, bonito. Esse não. Eu tinha que acertar porque eu estava numa época em que a ditadura ultrapassou os limites e estava sufocando aquilo que eu mais amava: o meu cinema.
(…)
Você vê que o filme é diferente. Um homem que costuma fazer coisas para o público sente-se revoltado e tenta fazer algo contra uma censura que o atarraxou – e atarraxou mesmo, porque nunca liberaram a fita, e eu acabei me afundando. (PUPPO; AUTRAN, 2007, p. 25-26.)
Filmado em 1969, Ritual dos Sádicos apresenta temas muito diferentes dos que costumavam desfilar à frente da câmera de Mojica. Foi escrito por Rubens Francisco Lucchetti e é formado por histórias que transcorrem no cenário urbano-cosmopolita nitidamente reconhecível da cidade de São Paulo, no período igualmente reconhecível do final dos anos 60. Digo “histórias”, porque o filme é composto por episódios que se conectam em um super-enredo metalinguístico em que o pai de Zé do Caixão responde a todos os apedrejamentos que sempre sofrera por parte dos donos do poder moral e do poder intelectual neste país. As demarcações específicas de lugar e de tempo terão importância fundamental na comunicação da mensagem a que o filme se propõe, a um só tempo progressista e conservadora (as drogas viciam e produzem os mais diversos males, inevitavelmente; mesmo assim, não devem ser proibidas). Trata-se, aqui, de uma tomada de posição, por parte de Mojica, quanto ao turbilhão contracultural que vinha assaltando as sociedades ocidentais no período: psicodelia, tropicalismo, movimento hippie, rock n’ roll, liberação sexual etc. Além de uma tomada de posição quanto à censura exercida pela ditadura.
A narrativa se encontra amarrada em nós pouco apertados, o que já levou muita gente a dizer que é fragmentada. Na verdade, essa teria sido a solução encontrada contra o baixo orçamento: obrigado a filmar rapidamente, Mojica teria preferido uma história mais episódica, para evitar a utilização de muitos atores durante um tempo prolongado. Isso seria particularmente válido em relação aos três únicos atores profissionais que trabalharam no longa: Sérgio Hingst, Ítala Nandi e Annik Malvil; mas também vale para os cineastas marginais – todos amigos de Mojica – que doaram um espaço da sua agenda para atuar em Ritual dos Sádicos: Ozualdo Candeias, Carlos Reichenbach, Maurice Capovilla, João Callegaro, Walter Portella e Jairo Ferreira (Fernandez, 2000, p. 186-187).
Do que se trata
O filme se divide em três blocos. O primeiro, de mais ou menos quarenta minutos, apresenta o tema central: o “problema” das drogas em uma metrópole contemporânea, no final dos anos 60. Seu eixo condutor é a simulação de um programa de debates na TV, chamado “Um Clarão nas Trevas”, que consiste em uma conversa entre alguns “especialistas” (interpretados pelos conhecidos diretores do Cinema Marginal, citados no parágrafo anterior, além do ator Sérgio Hingst, que vive o psiquiatra) e o cineasta José Mojica Marins (interpretando a si próprio) sobre o problema dos “tóxicos”: a ideia seria “descobrir” se as drogas ilícitas estimulam ou não comportamentos “anormais”. Os debatedores discutem notícias – todas elas sensacionalistas – de atos repugnantes (a maioria de cunho sexual) e crimes que teriam sido cometidos sob efeito de drogas. O filme põe em cena tais acontecimentos (instaurando o formato episódico ao qual aludimos), reconstituindo-os em detalhes explícitos e escabrosos, pouco exibidos no cinema brasileiro até o momento, e entremeados por comentários dos “especialistas” no estúdio, que se engajam em uma discussão acalorada.
Na primeira cena, vemos uma estudante secundarista que é aliciada na saída da escola por dois homens, os quais a conduzem até uma “festa” hippie que acontece dentro de um apartamento. Única mulher ali presente, a estudante experimenta maconha e é levada a participar de “rituais” teatrais / dionisíacos que terminam com o estupro e morte da jovem. A segunda, breve, traz um homem que, ao modo sadomasoquista, “domina” três mulheres. Na terceira, aparece uma mulher que injeta droga na veia de um gigolô, ao som da marchinha carnavalesca composta em homenagem ao Zé do Caixão: “Castelo dos horrores”, composição de B. Lobo e Roney Wanderley, lançada em 1968; todos acabam levados no camburão pela polícia, que também prenderá, em seguida, um traficante, um usuário de drogas e um cafetão.
Aqui, cabe apontar um fato curioso a respeito da produção: os policiais que aparecem em Ritual dos Sádicos são reais; trata-se de uma patrulha comandada por ninguém menos que Sérgio Paranhos Fleury, que posteriormente se tornaria um dos nomes mais notórios do DOPS (Departamento Estadual de Ordem Política e Social), o temível órgão que comandava os principais crimes de tortura, homicídio e ocultação de cadáver sistematicamente cometidos pela ditadura militar. Fleury havia atendido um chamado anônimo a respeito de “uso de drogas”, sem saber que se tratava da gravação de um filme. Chegando ao set, teria sido convencido por Mojica de que se tratava – na verdade – de uma produção “anti-drogas”; logo, o policial teria oferecido a si mesmo e à sua equipe como atores e “consultores” para a produção.
A quarta cena trará uma senhora rica voyeur que promove encontros sexuais entre a filha e o mordomo, para observar a ambos, enquanto acaricia um jumento. A quinta, mais demorada, nos mostra o dono de uma agência para empregadas domésticas assediando uma candidata durante entrevista; em seguida, ele chama um rapaz que estuprará a moça, enquanto observa tudo também como um voyeur. A sexta e a sétima (última) cena expõem, respectivamente, um homem cujo fetiche é lavar as roupas sujas de duas mulheres, e uma mulher casada que se deita com o seu amante ao som incidental da clássica marchinha “Boas Festas”, de Assis Valente.
O segundo bloco, com apenas 15 minutos e composto por um flashback, serve mais como transição para a terceira parte e conclusão do filme. Sem conseguir chegar a um consenso sobre a medida do poder “maléfico” das drogas, prossegue o debate em Um Clarão nas Trevas. Um dos “especialistas”, Dr. Sérgio (Sérgio Hingst), apresentado como médico psiquiatra, explicará uma experiência que fizera recentemente, com o propósito de vir a publicar um livro, assim como a razão de José Mojica Marins ter sido convidado para o programa. O objetivo seria determinar, “empiricamente”, a extensão do poder “influenciador” das drogas, através de uma sessão controlada de uso de LSD a partir da sugestão de alguma imagem ou experiência que impactasse o “subconsciente”. Para tanto, foram selecionados quatro voluntários, entre usuários costumazes de drogas, que são os mesmos personagens das reconstituições noticiosas mostradas anteriormente: Lurdes Vanucchi Ribas (que interpreta a senhora rica voyeurista), Andréa Bryan (a jovem da cena que abre o filme), Mário Lima (o fetichista das “roupas sujas”, ator que é parceiro frequente de Mojica) e, mais uma vez, Ozualdo Candeias (o sadomasoquista dominador).
Todos serão levados para assistir, na sequência, à peça de teatro Na Selva das Cidades, de Bertold Brecht, encenada no Teatro Oficina; a uma apresentação musical de rock and roll e ao filme Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver. A proposta era que escolhessem uma das três experiências como “mote” para a sessão de LSD. O médico explica aos seus parceiros de debate que se decidira pelo filme com Zé do Caixão após ver uma entrevista de Mojica na TV, no programa sensacionalista intitulado Quem tem medo da verdade?, em que o diretor se “defende” das acusações que lhe desferem a crítica cinematográfica e a moral dominante no período da ditadura, promovendo, ao mesmo tempo, uma profissão-de-fé do seu próprio cinema (independente, de baixo orçamento e popular). Ao contrário de “Um Clarão nas Trevas”, temos aqui um documento real da TV brasileira dos anos de chumbo: Quem tem medo da verdade? foi produzido e exibido pela TV Record, de SP, entre 1968 e 1971.
Os voluntários, logicamente, escolherão a figura de Zé do Caixão como “mote” de sua vivência psicodélica, apesar de possuírem opiniões divergentes a respeito do personagem. Lembremos que são representantes de classes sociais variadas, a pedido do “cientista”, e sequer recebem nomes no filme: Mário Lima interpreta um ator que muito admira José Mojica Marins e declara já ter trabalhado com ele; Ozualdo Candeias faz um contador que se declara impressionado, acima das outras duas experiências, com o filme a que assistiram, mas não emite maiores juízos sobre Zé ou Mojica; Lurdes Ribas vive a madame grã-fina que abomina a figura do famoso coveiro (representando a moral dominante na sociedade brasileira do período); por fim, Andréa Bryan é uma bilheteira de sala de cinema que considera Zé do Caixão “um artista como outro qualquer”. O médico, então, pendurará na parede do seu consultório o pôster de Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver e injetará uma dose de LSD em cada uma das quatro “cobaias”.
Representando de maneira bastante livre os efeitos lisérgicos, o filme mostrará, em sua meia hora final (terceiro e último bloco), a “viagem” psicodélica de cada um dos quatro personagens, que se encontrarão “transportados” para diferentes ambientes e serão guiados, em suas “descobertas”, pelo próprio Zé do Caixão. Cada voluntário receberá sugestões diferentes por parte de Zé do Caixão: algumas libertadoras e epifânicas (bem na linha de Timothy Leary, o papa do LSD); outras, degradantes e traumáticas. Ozualdo Candeias (o contador) viverá uma fantasia sádica em que faz o papel de dominador de várias mulheres, completamente submissas a ele, adorando-o. No final, Zé do Caixão começa um empolado discurso misógino que terminará pela boca do próprio Candeias, com ar hipnotizado, no consultório onde se realiza a experiência.
Esse recurso – uma fala impostada, iniciada por Zé e finalizada pelo personagem em questão – será utilizado também ao cabo da “alucinação” dos outros voluntários. Lurdes Ribas (a grã-fina que abominava o personagem de Mojica) experimentará Zé do Caixão como uma distorcida figura messiânica / moralizante, um Jesus Cristo às avessas, mas ainda assim bastante puritano, que a salvará da “ameaça” de um monstro pantagruélico – o qual nada mais é do que uma disfarçada genitália masculina. O ator Mário Lima, fã e parceiro de Mojica, tem a sua epifania orientada para o artístico: Zé do Caixão se apresenta a ele como a obra de arte desveladora de dimensões transcendentais, para além dos conceitos do bem e do mal. Finalmente, Andréa Bryan (a jovem bilheteira de cinema), que, anteriormente, não se abalava pela figura do coveiro, passará a reputá-lo um sádico e a “encarnação do demo”, o que corresponde à visão que a moral dominante do período tinha a respeito do cineasta / ator e do seu personagem. A jovem é terrivelmente torturada por ele em sua fantasia.
Voltando ao momento presente, no estúdio onde se grava Um Clarão nas Trevas: um dos convidados desqualifica por completo a experiência do Dr. Sérgio, acusando-o de usar cobaias humanas, “muito embora se tratasse de viciados em drogas”. Este se defende, admitindo que usara apenas um placebo, e expõe a sua conclusão: o “tóxico” seria apenas um pretexto para que o ser humano libere os seus “instintos”, e se alguém comete um crime sob influência das drogas, isso significa que a mente do indivíduo já era “doentia”; portanto, a melhor política pública a se promover não seria reprimir completamente as drogas ilícitas, mas “moderar” o seu uso e fortalecer a “vigilância” dispendida aos traficantes.
Termina o programa, os convidados saem. Na porta do estúdio, acompanhando Mojica, o Dr. Sérgio lhe faz uma última pergunta, querendo saber de onde o cineasta tira sua inspiração, ao que este responde: “Muito simples: o senhor terminou a sua obra, eu inicio a minha”, sugerindo que transformará o experimento do psiquiatra em filme. Vemos, então, Mojica sair andando pelas ruas de São Paulo, até que se depara – a certa distância – com um automóvel que buzina para duas moças que caminham pela calçada; elas param, o carro também, e desce um homem que troca algumas palavras (inaudíveis) com ambas; em seguida, uma delas o acompanha para dentro do veículo, que parte sem mais, enquanto a outra fica olhando da calçada – insinuação de mais um aliciamento para festas privadas e regadas a drogas, como vimos na primeira parte do filme? A câmera volta para Mojica (primeiro plano do seu rosto), que olha diretamente para a lente, dá um sorriso irônico e arremata: “Corta!” A imagem se congela por alguns instantes, antes do corte para a tela escura na qual se anuncia o fim do longa-metragem.
A via-crúcis da censura
Em 29 de junho de 1970, o SCDP (Serviço de Censura de Diversões Públicas) acusou o recebimento de uma cópia de Ritual dos Sádicos, junto da devida “requisição de censura”, necessária antes que o filme pudesse ser colocado em cartaz. Em anexo, uma ficha técnica e um “comentário sobre o filme” (que hoje chamaríamos de pré-release) escrito pelo roteirista Rubens Francisco Lucchetti. Criado em 1945, o SCDP era originalmente vinculado ao DFSP (Departamento Federal de Segurança Pública), que, em 1967, tornou-se o Departamento de Polícia Federal. Em 1946, definiram-se as suas atribuições, com o Decreto nº 20.493, publicado no mesmo ano. Tal decreto legislou sobre todos os assuntos de censura até a sua extinção, com a promulgação da nova Constituição Federal em 1988. Os funcionários que ficavam a cargo de assistir aos filmes e elaborar pareceres defendendo a sua liberação ou proibição (total ou parcial) eram, no geral, cidadãos de nível médio de escolarização, contratados via concurso público que incluía exame psicotécnico, no qual se perguntavam aos candidatos se já tinham passado por alguma experiência sexual “condenável” pela sociedade ou se tinham medo de aranha (tendo em vista, aqui, especificamente os filmes de Mojica). Depois de aprovados, passavam por cursos de aperfeiçoamento de tempos em tempos, dentre os quais se incluíam cursos de “análise” da linguagem cinematográfica. Mas, no geral, os censores tinham a mesma formação cultural da média dos brasileiros na época, o que contribuía para que fossem executores eficazes das medidas repressivas vindas dos altos escalões do governo autoritário – eram expressão acrítica de parcela considerável das expectativas da sociedade quanto às artes e ao entretenimento; muita gente os queria lá, escolhendo o que todos deveriam ou não ver.
Ritual dos Sádicos foi visto e analisado por seis censores, durante o primeiro processo (junho-agosto de 1970): cinco deles aprovaram o filme, com sugestões de cortes; apenas um votou pela interdição total: Paulo Leite de Lacerda. O seu foi o primeiro parecer expedido (30 de junho de 1970, apenas um dia depois de o SCDP ter recebido a cópia de Ritual dos Sádicos). Nas imagens abaixo, a súmula assinada por ele:
A lei nº 5.536, de 1968, citada pelo censor, impôs novas normas de censura ao cinema e ao teatro. O seu artigo 3º, evocado por Lacerda, determina que
(…) para efeito de censura classificatória de idade ou de aprovação, total ou parcial, de obras cinematográficas de qualquer natureza, levar-se-á em conta não serem elas contrárias à segurança nacional e ao regime representativo e democrático, à ordem e ao decoro públicos, aos bons costumes ou ofensivas às coletividades ou às religiões ou ainda, capazes de incentivar preconceitos de raça ou de lutas de classes.
A menos de um mês antes de ser baixado o AI-5, soa como um acinte o legislador falar em nome do “regime representativo e democrático”; contudo, para além da questão da “segurança nacional”, deve-se destacar – tanto na letra da lei, quanto no parecer do censor – a defesa da moral dominante: bastião sempre erguido em riste contra os filmes de Mojica, desde o seu primeiro longa-metragem, A Sina do Aventureiro, de 1958, ainda no governo democrático de Kubitschek.
Já o decreto-lei nº 1.077/70, de 26 de janeiro de 1970, torna legal o ato de censura prévia, estabelecendo a análise antecipada de todas as produções de cinema, teatro, espetáculos, discos, propagandas e anúncios na imprensa, com vistas à sua aprovação ou interdição, total ou parcialmente, sempre utilizando como justificativa maior o “resguardo da moral e dos bons costumes”. O artigo 1º, citado pelo censor Lacerda, esclarece: “não serão toleradas as publicações e exteriorizações contrárias à moral e aos bons costumes quaisquer que sejam os meios de comunicação”. O artigo 7º, por seu turno, explicita as determinações do 1º: “A proibição contida no artigo 1º deste Decreto-Lei aplica-se às diversões e espetáculos públicos, bem como à programação das emissoras de rádio e televisão”.
Ritual dos Sádicos foi visto também por um 7º censor, Constâncio Montebello. Detectando o possível nó górdio que o filme poderia oferecer às instituições do governo militar, o técnico decide escrever diretamente ao chefe do SCDP (em 12 de agosto de 1970), propondo uma estratégia que não ferisse a “credibilidade” do departamento:
Examinamos a película em epígrafe e verificamos que a mesma merece, realmente, ser interditada (grifos do próprio autor), entretanto, por tratar-se de uma película de produção nacional, já liberada pelo Instituto Nacional do Cinema, cremos que a interdição traria como consequência uma série de reclamações, pedidos e publicidades que redundariam na liberação com os cortes mínimos necessários. Desejamos evitar que a digna chefia do S.C.D.P. fique a braços com tais problemas, motivo pelo qual aventamos duas hipóteses: uma de interdição total, justa e merecida, devidamente baseada na legislação vigente, e, a outra, a da liberação com os cortes mínimos que a mesma julgar suficientes para sua liberação.
O INC (Instituto Nacional de Cinema) foi um órgão criado pela ditadura militar com o objetivo de “promover” e regular a produção e distribuição de cinema no Brasil, segundo preceitos que não contrariassem, logicamente, os interesses do regime. Durou de 1966 a 1975. A seguir, o censor enumera os “cortes mínimos” que propõe:
1. Toda a sequência inicial do filme, uma vez que focaliza “a Escola Caetano de Campos, (…) estabelecimento de ensino conceituadíssimo, numa insinuação de que suas jovens estudantes seriam dadas a vícios e máus costumes (…)”.
2. A cena da “‘madame’ e seu jumento”, apesar de a relação sexual ali ocorrer “não em cenas muito evidentes”.
3. A cena do estupro na agência de empregadas domésticas, cuja vítima é referida pelo censor como sendo “deflorada”, aos “esperneios”.
4. Aqui, a pretensa candura do censor é de fazer rir: “No encontro entre um casal (…) há umas tomadas do homem no ‘vai-e-vem’ normal da cópula”.
Montebello finaliza com a boa disciplina do funcionário-padrão, ao passar a “batata quente” para as mãos do seu superior: “Com o receio natural de cometer exageros, quanto à nossa opinião, é que sugerimos ser interessante que a digna chefia do SCDP examinasse a película”. O engraçado é que o censor assina, na mesma data, outro ofício recomendando com firmeza a liberação de Ritual dos Sádicos para exportação, dadas as suas qualidades artísticas semelhantes a “inúmeros filmes estrangeiros que têm recebido trânsito livre em nosso país”, e lembrando que o filme “visa apenas a parte comercial, traduzindo-se em divisas para o Brasil”. Quatro dias depois (16 de outubro), a película de Mojica ganharia o certificado para exibição fora do país.
Wilson Aguiar, chefe do Serviço de Censura de Diversões Públicas no período, não se deixou intimidar e expediu, em 21 de agosto, uma portaria interditando por completo a exibição de Ritual dos Sádicos em todo o território nacional, arvorando-se no Decreto 20.493 (fundamento dos atos de censura, de 1946 a 1988, como já vimos), particularmente o artigo 41º: “Será negada a autorização sempre que a representação, exibição ou transmissão radiotelefônica”, nas linhas a) “contiver qualquer ofensa ao decôro público”; b) “contiver cenas de ferocidade ou fôr capaz de sugerir a prática de crimes”; c) “divulgar ou induzir aos maus costumes”; f) “fôr ofensivo às coletividades ou às religiões”.
Sem se deixar abater, os donos do filme (Fotocena Filmes LTDA.) entrarão, ao longo dos anos, com quatro pedidos de reavaliação do filme: o primeiro, quase imediatamente (setembro de 1970); o segundo em dezembro de 1971; o terceiro e o quarto em 1981 e 1982. Todos os requerimentos tentaram repetir o argumento de que Ritual dos Sádicos seria um “alerta ao povo brasileiro contra a proliferação do uso de tóxicos”. O técnico de censura Antônio de Pádua Carvalho Alves, em 07 de outubro de 1970, opina pela interdição: “Procurando justificar a amostragem de quadros tão chocantes e deprimentes, o filme recorre a se rotular como científico. A própria condução da película, entretanto, põe por terra tal pretensão (…)”. Dois dias depois, Osmar Fialho acrescenta, indignado: “Gera uma desconfiança de embuste, principalmente pela auto-promoção do produtor e pelas suas palavras de levar ao público aquilo que o público quer ver” (grifos do autor).
Em um parecer datado de 02 de janeiro de 1972, o censor Luiz Carlos Melo Aucelio sentencia, igualmente a favor da continuidade da interdição:
O produtor procura dar a entender que a sua obra se destina a combater o tóxico, porém pelas suas tomadas, enfocando fatos, que são aberrações da sociedade,termina por transforma-los em atos do cotidianos, servindo portanto de agente motivador da aceitação das referidas aberrações.
Fazendo coro aos argumentos dos colegas, Sebastião Minas Brasil Coelho (08 de fevereiro de 1972) reforça a proibição, acrescentando a sua própria pérola ao pensamento dominante da censura: “Assim como é responsabilizado o tóxico, poderia também ser responsabilizado qualquer outro elemento químico, como a água ou qualquer outro líquido” (a conclusão que vemos em Ritual dos Sádicos é de que as drogas “apenas” potencializam inclinações já presentes nos indivíduos). Vicente de Paula Alencar Monteiro, na mesma data, toma igual decisão, fazendo, porém, uma interessante ressalva e demonstrando estar a par dos debates críticos dominantes a respeito do cinema feito no Brasil: “A obra não traz qualquer fato positivo para a evolução do cinema brasileiro, em que pese ser o seu autor considerado ‘um gênio do primitivismo’”. Ainda em fevereiro de 1972, Coriolano de Loyola Cabral Fagundes (que ocupava o cargo de censor desde 1961) também opina pela proibição.
Em agosto de 1981, após novo pedido de reconsideração por parte dos produtores (no qual fazem questão de lembrar que o filme já se encontrava liberado para exportação), começa mais uma rodada de pareceres de técnicos de censura, redundando, uma vez mais, em interdição. Em três pareceres, datados de junho de 1982, o título já aparece modificado para O Despertar da Besta (estratégia malandra utilizada pelos próprios produtores, querendo fazer parecer que se tratava de uma produção recente). A decisão é unânime pela continuidade da interdição, e os censores não se deixam enganar, lembrando aos seus superiores que o mesmo longa já tinha sido apresentado e proibido, anteriormente, sob outro título. No final do mesmo mês, a diretora do SCDP (Solange Maria Teixeira Hernandes, a infame Solange “Tesourinha”, censora de linha dura, temida por dez entre dez artistas e produtores culturais durante a ditadura) expede ofício determinando nova interdição.
Finalmente, em 1982, desta vez dispostos a abrir largas concessões para finalmente conseguirem a liberação do filme, os produtores concordarão com o argumento jurídico das proibições anteriores (a lei 20.493/46) e declararão terem feito “10 (dez) cortes de imagem e vários de som, de forma a suprimir toda e qualquer alusão a tóxico do contexto da obra” (grifo dos autores). Conhecendo o longa-metragem original, fica difícil imaginar qualquer coerência, sequer coesão, depois de tamanha mutilação. Ainda pedem que O Despertar da Besta seja liberado para exportação (esquecendo-se de que a fita já tinha salvo-conduto para fora do país desde 1970), pois “a mesma está cotada para o Festival da Espanha e vem sendo solicitado por importadores do exterior”.
Finalmente, a censura dá o braço a torcer. Em três pareceres, expedidos ainda em setembro do mesmo ano, lemos a mesma recomendação: “No filme reexaminado foram feitos vários cortes (…), tornando bastante razoável sua liberação para o público adulto” (nome do técnico ilegível); “Considerando que os cortes apresentados diluíram as implicações de maior intensidade, (…) opinamos pela liberação da película para maiores de dezoito anos” (Eni Martins França Borges); “As supressões realizadas pelo interessado contribuíram para amenizar o aspecto mais contundente do filme (…). Desta feita, julgamos viável a liberação da película para público adulto (…)” (Maria das Graças S. Pinhoti).
No entanto, mesmo com certificado, a versão extensamente mutilada de Ritual dos Sádicos não encontrou distribuidores e seria exibida apenas em uma sessão especial, na cidade de São Paulo, em 18 de agosto de 1983. A versão integral só seria finalmente apresentada ao público em agosto de 1986, no festival Rio Cine, na cidade do Rio de Janeiro, recebendo dois prêmios: de roteiro, para Rubens F. Lucchetti, e de ator, para José Mojica Marins. O filme permanece inédito, até hoje, no circuito comercial de cinema. Existem edições oficiais em VHS, DVD e serviços de streaming.
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