Joker: Folie à Deux

Joker: Folie à Deux é o “Dom Quixote” da era da pós-verdade. Não o personagem, mas o livro de Cervantes, que deu origem ao gênero narrativo do Romance e ainda continua apontando caminhos para o futuro das narrativas ficcionais. Originalmente, Dom Quixote não é herói e a sua jornada não serve para catarse redentora alguma. A história do cavaleiro andante é uma sátira impiedosa das novelas de cavalaria medievais e do efeito pernicioso que estas exerciam em leitores fanáticos.

Quem transformou Dom Quixote na figura de um herói individualizado, segundo a visão de mundo liberal-burguesa de hipertrofia do valor do indivíduo, um “herói” de coração “puro”, que luta contra as forças maléficas de um mundo que ele não pode jamais vencer, ficando apenas a reconfortante sensação de uma vitória “moral” (que ilude impiedosamente à direita e à esquerda no espectro político), o viés de confirmação de uma superioridade moral, foi a geração do Romantismo do século XIX (Cervantes é do século XVI-XVII).

Aquela foi a mesma geração romântica inspirada por um saudosismo medievalista do que hoje chamamos extrema-direita, um saudosismo amargamente reacionário contra o Iluminismo, as revoluções burguesas e valores “modernos”, como democracia, igualdade de direitos etc. Esse saudosismo é mantido fantasmaticamente ainda hoje pela extrema-direita incel do “deus vult”. O engenhoso fidalgo D. Quixote de La Mancha foi a primeira sátira mordaz contra a cultura furuncular dos incels e de fandoms tóxicas de geeks aloprados.

Dom Quixote foi também o primeiro romance da História, porque foi a primeira narrativa longa centrada na figura do indivíduo em dissociação completa com o mundo e com os outros seres humanos, sua subjetividade e visão de mundo em dissociação completa com qualuer forma de realidade exterior minimamente objetiva. Mas esse conflito, em Cervantes, é expresso sob a égide da sátira e da paródia: Dom Quixote é um “herói” absolutamente anti-catártico, ridículo em seu delírio de “resgatar” os valores e as práticas da cavalaria andante.

A realidade brasileira do século XXI demonstra o quanto Cervantes continua atual.

O propósito cervantino é o da correção de costumes através do riso, prática comum na literatura e no teatro dos séculos XV e XVI. O Coringa de Todd Phillips é igual: uma sátira aos circuitos de catarse heroica (ou anti-heroica, o que dá no mesmo para todos os efeitos) do cinemão de super-heróis (e de anti-heróis ou vilões). Esquerda e direita vibraram com as coringadas de Arthur Fleck no primeiro filme, embora somente a direita leu o filme da maneira “documental” como os leitores do “deus vult” liam as novelas de cavalaria medievais.

Mas eis que, neste segundo filme, não há coringada ALGUMA (exceto nos delírios de Fleck, o que dá o sabor quixotesco do filme). Folie à Deux é um gigantesco e espalhafatoso anti-climax de mais de duas horas, e isso é sensacional. Está dado o recado, para quem for capaz de entender. Outro clássico literário que podemos aproximar de Joker: Folie à Deux é o romance “Madame Bovary”, do século XIX, que deu origem ao Realismo francês, desconstruindo as narrativas fantasiosas do romance romântico com a mesma ironia ácida de Cervantes.

Mas em Flaubert o alvo principal é a noção aloprada (e profundamente incel) do amor romântico e sua representação na Literatura, dimensão essa que também está presente neste novo Joker. Em verdade, não existe esse amor romântico de musicais hollywoodianos clássicos ou de romances românticos folhetinescos, assim como não existe nenhum herói “puro”, perfeitamente vitimizado pelo meio social, que se tornará um rebelde puro e perfeito que encabeçará uma revolução que tratá redenção e utopia a todos nós.

Não existe. Nem à direita, nem à esquerda. Todd Phillips se refestelou no universo do Batman “sério”, sombrio, apenas para mostrar que esse universo não pode ser levado a sério. Assim como as novelas de cavalaria não podiam ser levadas a sério, ou os folhetins do XIX. É só gibizinho. Joker, o Batman de Matt Reeves e, mais ainda, o de Christopher Nolan, assim como o Penguin da HBO devem ser consumidos com a mesma atenção, estado mental e de espírito com que consumimos a gloriosa série camp do Batman dos anos 60. Apenas.

Cesar Romero, o Coringa clássico dos anos 1960.

Joker: Folie à Deux é, para mim, um dos melhores filmes do ano. Existe uma técnica literária muito interessante chamada “engaño-desengaño”, utilizada por Arthur Rimbaud no poema “Le dormeur du val” e vastamente utilizada por Cervantes no “Dom Quixote” e nas “Novelas Exemplares”. Consiste em construir e conduzir uma narrativa que, aparentemente, rume em uma direção, na expectativa do leitor; porém, no final, ficará demonstrado não só que o destino era outro, mas que o próprio caminho foi bem diferente do que aquele que o leitor imaginava.

Por isso, pensando a partir da lógica do engaño-desengaño, Joker: Folie à Deux não é uma sequência. É parte integral do filme anterior de 2019, seu desfecho real, sua conclusão de fato, ao contrário do que fomos levados a pensar pelo narrador-autor. Ambos os filmes formam as duas partes de uma única piada, e Folie à Deux nada mais é do que a “punch line” dessa piada, imprevista ou frustrante para uns, exasperante para outros, sagaz e hilária para outros ainda (eu me incluo neste terceiro grupo). Estará, definitivamente, na minha lista dos melhores de 2024.

P.S.: Escrevo este texto sob o eco da notícia de que um “Arthur Fleck” da vida explodiu a si mesmo na frente do STF em Brasília, na noite passada. Segundo a imprensa, ele estava vestido com roupas que faziam referência ao Coringa.

Uma resposta para “Joker: Folie à Deux”.

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