Melhores filmes de 2025

Eu achei 2025 um ano fraco para o cinema. Não foi como 2024 ou 2023, que tiveram diversos filmes verdadeiramente memoráveis, o que tornou bastante ingrata a tarefa de escolher os melhores, principalmente as primeiras 5 ou 10 posições dentre estes. Quanto ao ano que passou, não acredito que nenhum dos 20 filmes abaixo estará entre os melhores da década (a não ser que os próximos 4 anos sejam realmente catastróficos). Mesmo assim, 2025 nos trouxe algumas (poucas) experiências cinematográficas relativamente marcantes. Ei-las.

  1. Train Dreams (EUA, 2025, Clint Bentley)

Os melhores filmes são como a vida. São como o mundo. Nada mais. Mas nada menos. Os melhores filmes são bonitos e tristes, cheios de graça e de dor. Como uma canção de Nick Cave. Os melhores filmes nos inspiram a amar (mais) a vida, a apreciar e aproveitar melhor os (poucos) dons que ela nos dá. Mas também nos preparam para o pior, nos consolam, nos ajudam a enfrentar e superar os inevitáveis traumas. Sim, catarse pura; mas também vivência do humano, demasiado humano.

2. Oeste Outra Vez (Brasil, 2024, Erico Rassi)

O sertão é do tamanho do mundo, já disse João Guimarães Rosa. E Oeste Outra Vez traz a medida exata entre o particular brasileiro, outros particulares (o velho oeste estadunidense) e o universal. Com um rigor, um equilíbrio e uma sabedoria cinematográfica inigualável, na fotografia, na montagem, na direção de atores e na trilha sonora, com o melhor do brega de “dor de cotovelo”, cheio de estilo, cheio de classe. Um filme quase mítico. Ângelo Antônio gigante.

3. Eephus (EUA / França / Singapura, 2024, Carson Lund)

Sou 100% partidário das correntes teórico-críticas que atribuem ao Cinema a grande vocação de produzir Revelação. Mas não revelação de alguma verdade metafísica, e sim revelação da nossa própria realidade material. Quanto mais banal e cotidiana a realidade revelada, mais materialisticamente epifânico e transcendente será o Cinema. Porque, como muitos já disseram, a alma do mundo se esconde por trás do mais prosaico, e o mais essencial da vida pode passar “batido” por trás de pequenos e irrelevantes acontecimentos.

Por isso, Eephus é uma vivência. De todos os filmes que eu pude ver em 2025, talvez seja este o que mais nos oferece vivência, atributo e potencial maior da Sétima Arte. Eu queria morar dentro deste filme. Sim, este é um daqueles filmes que fazem a gente querer morar dentro deles.

4. Sorry, Baby (EUA / França / Espanha, 2025, Eva Victor)

O filme de estreia da diretora, roteirista e protagonista Eva Victor consegue um feito raro, mesmo para cineastas veteranos: oferecer ao espectador uma experiência de trauma e de graça, na mesma medida. É um filme assombrosamente sofrido e heartwarming de se ver, ao mesmo tempo. Alguns podem considerar esse efeito banal. Eu considero um grande feito artístico.

5. The Brutalist (EUA / Reino Unido, 2024, Brady Corbet)

A escritora estadunidense Dara Horn, em seu afiadamente intitulado “People Love Dead Jews” (lançado em 2021 e traduzido no Brasil como “As Pessoas Amam Judeus Mortos”) analisa criticamente dois elementos característicos de narrativas de sucesso sobre judeus feitas por não-judeus:

1) A representação de judeus exclusivamente como vítimas servidas em holocausto como “tokens” para sentinentos pios de compaixão por parte de não-judeus, o que se revela de maneira singelamente simbólica, em Língua Portuguesa, em palavras como “judiar”, “judiação”, “judiado”. Em resumo, judeu é sinônimo de vítima. E nada mais do que isso. Esse seria o papel quase ontológico a ser cumprido pelo povo judeu. Ponto final. Eis o motivo maior pelo qual as pessoas “amam” judeus mortos.

2) A representação de judeus igualmente como vítimas ontológicas, mas desta vez, colocadas perante o altar da redenção pelas mãos de algum agente não-judeu (preferencialmente cristão), dentro de narrativas edificantes de “salvação” que visam massagear o cerne da visão de mundo cristã e muito convenientemente expiar a culpa coletiva que assola a consciência de uma humanidade supostamente moderna e esclarecida que permitiu uma barbárie como o Holocausto perpetrado pelo terceiro reich no miolo do século XX.

Mas o ponto vital que eu quero destacar aqui é quando Dara Horn demonstra que, via de regra, narrativas que ousem representar judeus para além das duas estritas funções acima descritas costumam sofrer péssima recepção de público e de crítica (ou, minimamente, uma recepção bastante divisiva). E isso, para a autora, é a prova definitiva de que as pessoas “amam” judeus mortos. Mas os judeus vivos continuam sendo “problema”, como sempre. Os judeus que têm a ousadia de existir, de resistir, com orgulho e resiliência.

É este o caso de O Brutalista e da “polêmica” recepção que o filme teve. A cinebiografia épico-fictícia de Brady Corbet é muitas coisas, e isso traz uma grande qualidade e amplidão temático-narrativa para o filme. Mas é, essencialmente, uma ambiciosa história das vivências coletivas judaicas pós-Shoah, contada a partir do foco em judeus que não permitem serem reduzidos a vítimas e que não permitem, igualmente, serem inscritos na História apenas como beneficiários da caridade e da redenção alheia.

Como bem disse o personagem de Guy Pearce, os judeus em O Brutalista são como “cães doentes que mordem a mão de quem os alimenta”. E isso é mais do que pode engolir o antissemitismo ainda premente, à direita (o antissemitismo clássico) e à esquerda (de um lado, o filossemitismo de pessoas esclarecidas que choram com “O Pianista” ou com “O menino do pijama listrado”; de outro lado, o “antissionismo” de militontos terceiro-mundistas que endossam o terrorismo islâmico e clamam pela “globalização da intifada”).

Eu li muitas críticas negativas sobre O Brutalista. E muitas delas levantam pontos pertinentes e legítimos. Mas também li diversas críticas que mal (ou mesmo sequer) disfarçam o incômodo com uma narrativa que tem a petulância de colocar judeus para fora do cercadinho que foi determinado para eles por muita gente que se diz progressista. Acredito que os autores dessas críticas não possuem o esclarecimento, a consciência necessária para compreender a armadilha em que caíram e apenas reproduziram velhos preconceitos estruturais inconscientes na maioria de nós (porque quem odeia judeu de verdade, geralmente, se expressa de maneira descarada, ou através de “apitos de cachorro” muito específicos e facilmente reconhecíveis). Por isso, eu recomendo: leiam o livro de Dara Horn. Depois, vejam, ou revejam O Brutalista.

6. Sinners (EUA, 2025, Ryan Coogler)

Dois dos meus aforismos prediletos a respeito do Cinema são:

Não é sangue, é vermelho. (Jean-Luc Godard)

O cinema é a música da luz. (Abel Gance)

Ambos podem ser intimamente relacionados a Pecadores. A alegoria visceral que anima e conduz o filme de Ryan Coogler nos faz pensar em remendar a frase godardiana, dizendo: “não é vermelho, é sangue!” Quanto ao insight de Gance, só nos resta dizer que, em algumas raras porém muito felizes ocasiões, cinema é música. Ponto final.

7. Highest 2 Lowest (EUA / Japão, 2025, Spike Lee)

Spike Lee é um dos últimos cineastas verdadeiramente clássicos ainda em atividade. 5 minutos vendo qualquer filme dele e você já percebe que está diante de uma arte antiga que quase não existe mais. Ver Highest 2 Lowest é como ver Akira Kurosawa, não porque este filme seja um remake, homenagem, citação ou pastiche. Mas porque Spike Lee é um artista saído da mesma forja que Kurosawa.

Muitos diretores fazem suas carreiras em cima de pastiches, de “influências” ou “homenagens”. É só o que eles podem fazer. Mas poucos cineastas conseguem adquirir e dominar o repertório e o talento suficientes para se igualarem aos grandes mestres. Ainda mais dominando igualmente um senso agudo do moderno, do atual em cada época, do premente, sem se refestelarem em passadismo, epigonia e nostalgia. Spike Lee é desses.

8. Holy Cow (França, 2024, Louise Courvoisier)

Uma singela história de coming of age em que o carisma pouco ortodoxo do protagonista injeta no espectador doses cavalares de encanto e identificação. Nós nos pegamos a quase torcer por ele, como se fosse um atleta em uma competição muito difícil, quase impossível. A moldura culinário-artística para a história de Totone traz o acabamento final. O cinema francês atual se divide em duas linhas opostas: 1. o mundo-cão de Titane (2021, Julia Durconau); 2. o mundo fofo de The Taste of Things (2023, Tran Anh Hùng). Holy Cow pertence à segunda linha – a minha favorita.

9. It Was Just An Accident (Irã / França / Luxemburgo, 2025, Jafar Panahi)

Fatos difíceis, mas incontornáveis:

1) Não há contemporização possível em favor de regimes de barbárie institucionalizada como a teocracia feminicida iraniana, como parte da esquerda terceiro-mundista adora fazer (alô, Brics, galera terceiro-mundista e “decolonial” – leiam Robert Kurz, o maior dos pensadores marxistas dos últimos 30 anos e o único que entende de verdade a geopolítica contemporânea.)

2) Dito isto, também é altamente problemática (antes de mais nada, ridícula) a reação simplista (e violenta, posto que nada mais do que discurso performático para alimentar algoritmos de redes sociais) que parte da galera progressista também adora vomitar contra a barbárie (alô, galera do “fogo nos fascistas!”).

O filme coloca de modo explícito as questões que realmente interessam para aqueles que estão de fato com os deles na reta (e não para jovens brancos ocidentais privilegiados que consomem geopolítica como esporte e sempre apostam nos tokens do momento para lucrar com ativismo de influencers): se adotarmos a violência bárbara dos nossos opressores, não nos tornaremos nós mesmos igualmente bárbaros?

Jafar Panahi, como artista e pensador maduro, é impiedosamente crítico contra qualquer forma de barbárie, institucionalizada ou “anti-hegemônica”. E não apresenta respostas ou soluções fáceis, como muitos adorariam ver e ouvir. O filme só apresenta questões. E nos abandona, no final, inconsoláveis com essas mesmas questões e suas muito imprevistas (e trágicas) consequências. Bem-vindos ao deserto do real!

10. Grand Theft Hamlet (EUA / Reino Unido, 2024, Sam Crane & Pinny Grylls)

Muita gente (cinéfilos, críticos, professores universitários e autores de livros) ainda hoje pensa que esticar a corda do cinema é fazer o que Godard ou Chris Marker faziam há 70 anos atrás. Não é. Fazer o que Godard ou Chris Marker faziam há 70 anos atrás é ser tradicionalista, conservador, clacissizante ou epígono.

Verdadeiramente experimentar, romper fronteiras e testar os limites do cinema, hoje em dia, é, por exemplo, fazer um filme dentro de um jogo de videogame online. O produto final de Sam Crane, Mark Oosterveen e Pinny Grylls não é nenhuma obra-prima. Mas o espírito de “tocação de foda-se” deles é o que realmente abre caminhos para a transformação, renovação e evolução da arte.

Em uma palavra: vanguarda. Grand Theft Hamlet não é um grande filme. Mas é explosivamente inspirador. Novas iniciativas aparecerão. E, um dia, alguém fará uma obra-prima a partir dos caminhos abertos por filmes como este.

11. Nouvelle Vague (EUA / França, 2025, Richard Linklater)

Cinema é fetiche

Todo cinéfilo é podólatra.

E esta pornografia de Linklater são múltiplos pares de pés pisando e caminhando em cima do cinéfilo deitado no chão, oferecendo-se para serem cheirados, chupados, lambidos e lambuzados. Reverenciados e adorados.

Para muitos, isto tudo será nada mais do que puro nojo. Mas para alguns poucos felizardos, será a realização das mais loucas fantasias, a libido em seu estado mais primevo, irrecalcada e irrecalcável. Até o último fôlego.

12. Ainda Estou Aqui (Brasil / França, 2024, Walter Salles)

O cinema de Walter Salles não mexe comigo. Para mim, o bilionário herdeiro de banco que tem como hobby fazer filmes é como o Sr. Spielbergo – o genérico mexicano de Spielberg não-sindicalizado, naquele episódio clássico dos Simpsons. Mas preciso reconhecer a qualidade do craft de Salles, ao qual ele vem se dedicando há décadas, com o afinco de um bancário que não quer ser incluído no próximo downsizing. E agora, finalmente os esforços dele (e da Globo Filmes) em se igualar aos grandes de Hollywood foram finalmente recompensados, na forma do Oscar.

É uma conquista também para o cinema, para o povo e para a nação brasileira, é claro, principalmente quando o tema em jogo é a ditadura civil-militar de 1964-1985. Nós merecemos essa alegria. Mas agora eu sonho com o dia em que o cinema popular brasileiro (de produtoras como, por exemplo, a Filmes de Plástico) receba quem sabe o mesmo reconhecimento: um longa como O Dia Que Te Conheci (2023, André Novais Oliveira) não fica devendo em NADA aos melhores filmes do ano, em escala mundial, que costumam ser eleitos pela crítica especializada, festivais ou premiações.

13. The Mastermind (EUA / Reino Unido, 2025, Kelly Reichardt)

Gosto de pensar neste filme como o Berlin Alexanderplatz de Kelly Reichardt e em como a diretora propõe, antes na chave do farsesco do que na do surreal-psicodélico, as origens históricas mais imediatas do estado atual de idiotia dominante nos EUA hoje em dia, em todos os pontos do espectro político.

14. If I Had Legs I’d Kick You (EUA, 2025, Mary Bronstein)

É o Mother! (2017, Darren Aronovsky) feito do jeito certo.

15. Cloud (Japão, 2024, Kiyoshi Kurosawa)

Um suspense / terror conduzido com maestria por Kurosawa, cheio de rigor formal e intensidade na atmosfera narrativa. Dou um valor especial para filmes que conseguem esticar o real até as raias do suprarreal, mas sem fazer a passagem para o “outro lado” em momento algum. Afinal, nada assusta mais do que o próprio mundo. E o inferno é aqui mesmo.

16. On Becoming A Guinea Fowl (EUA / Irlanda / Reino Unido, 2024, Rungano Nyoni)

A diretora Rungano Nyoni tem um estilo um tanto quanto brincalhão de filmar, o que dá um contraponto interessante para os temas e as histórias de seus filmes, sempre muito graves e urgentes. Esse jeito brincalhão, leve (embora “leve” seja uma palavra ainda menos adequada do que “brincalhão”), não serve para desqualificar ou amenizar as histórias e os personagens; é uma abordagem interessante na medida em que evita os clichês da tragédia social e, consequentemente, a recepção do filme como discurso “da vítima” (daqueles que, para o bem ou para o mal, são vistos apenas como vítimas e não como seres humanos multi-dimensionais).

A palavra-chave não é cosmopolitismo, mas apenas o não-reducionismo dos personagens a tipos sociais, quaisquer que sejam. É nestes parâmetros que encontramos a protagonista deste filme, circulando como pode entre sua identidade profissional, moderna, ocidental e sua identidade familiar, tradicional (com todos os terríveis problemas que decorrem de tradições patriarcais – questões prementes em diversas narrativas cinematográficas africanas contemporâneas). Se, em “I am not a witch” (2017), a “mão leve” da diretora estava a serviço da sátira, aqui a ironia não é de todo abandonada, mas subordina-se ao fio alegórico que abre e encerra o filme, através da figura da galinha d’angola. O final do filme é quase uma “punch line”.

17. Materialists (EUA / Finlândia, 2025, Celine Song)

Melhor filme sobre relacionamentos amorosos desde Medos Privados em Lugares Públicos (2006, Alain Resnais). Muito descabidas as críticas negativas que recebeu, motivadas certamente pelas expectativas idiotas de uma fan base que se formou em torno de Celine Song após Past Lives (2023). Também é injusto o esquecimento em que caiu o filme supracitado de Resnais.

18. Twinless (EUA, 2025, James Sweeney)

Um daqueles filmes que te machucam muito, impiedosamente. Mas também te confortam muito e te curam, na mesma medida.

19. The Last Viking (Dinamarca / Suécia, 2025, Anders Thomas Jensen)

Eu já tinha gostado bastante do filme anterior de Jensen, Riders of Justice (2020), que misturava altas doses de fofura e de extrema violência na linha dos grandes filmes de ação B dos anos 80. The Last Viking vai dois passos além, é ainda melhor, representando uma evolução interessantíssima na carreira do cineasta. The Last Viking pode ser definido como se Rain Man (1988, Barry Levinson) tivesse sido produzido pelo glorioso Cannon Group, estúdio responsável pelos maiores clássicos de ação B da década de 1980. De resto, se tem Mads Mikkelsen no elenco, você pode confiar que é filmão.

20. Caramelo (Brasil, 2025, Diego Freitas)

Filme-família sessão da tarde muito bem pensado e muito bem feito. E brasileiro! Colocando no pedestal muito bem-merecido o maior patrimônio nacional: o vira-lata caramelo! Parabéns! E obrigado! Quem fala mal não tem coração e a alma já apodreceu faz tempo.

Menções Honrosas:

Frankenstein (2025, Guillermo del Toro); Mickey 17 (2025, Bong Joon Ho); One Battle After Another (2025, Paul Thomas Anderson); All We Imagine As Light (2024, Payal Kapadia); Black Bag (2025, Steven Soderbergh); Bugonia (2025, Yorgos Lanthimos); Sentimental Value (2025, Joachim Trier); Blue Moon (2025, Richard Linklater); Sketch (2024, Seth Worley); Good Fortune (2025, Aziz Ansari); Chico Bento e A Goiabeira Maravilhosa (2024, Fernando Fraiha); Superman (2025, James Gunn); The Fantastic 4: First Steps (2025, Matt Shakman); Caught By The Tides (2024, Jia Zhangke).

Deixe um comentário