Marty Supreme

“I am beyond embarrassed”, grita Marty Mauser em um dos incontáveis momentos de tensão que marcam o ritmo frenético de Marty Supreme (EUA, 2025, Josh Safdie). Ele grita isso depois de já ter sofrido humilhações sem conta, ao sofrer mais um revés que está longe de ser o pior que lhe acontecera. Neste instante particular do filme, a reação do espectador – que vem sofrendo junto do protagonista – só pode ser a de dar uma risadinha cúmplice, como se nós mesmos estivéssemos a ponto de entregar uma fala como esta, em voz alta, no meio da sala de cinema, demonstrando que estamos absolutamente colados ao personagem, como se estivéssemos assistindo a uma novela de TV ou a uma partida de futebol.
Esse é o efeito que Josh Safdie provoca com o seu filme, já transformado em uma marca pessoal do cinema dele (e do seu irmão), desde Bom Comportamento (“Good Time”, 2017), passando por Joias Brutas (“Uncut Gems”, 2019). “I am beyond embarrassed” poderia se tornar a catch phrase de Marty Mauser, tão antológica quanto a “This is how I win”, afirmada por Adam Sandler no longa de 2019. Mas vamos um pouco além: eu prefiro entender a expressão “beyond embarrassed” (“eu estou para lá de envergonhado”, em uma tradução mais ou menos equivalente) para além do sentido mais vernáculo de: eu estou muito envergonhado, indescritivelmente envergonhado”.
Eu quero entender esse berro, dado por Marty Mauser em tom de bravata, como: eu já passei do ponto em que poderia sentir qualquer tipo de vergonha, superei, transcendi; agora você irá testemunhar a deflagração de uma força da natureza irreprimível. E este é o grito de vitória de Marty Mauser. This is how I win. Desse modo, Marty Supreme é o contraponto de Uncut Gems: o filme de 2019 é uma história de derrota; o filme de 2025 é uma história de vitória. This is what you want, this is what you get, como repete Johnny Rotten em ritmo igualmente frenético, incansável, na música da banda P.I.L., que entra na trilha sonora da história de Marty Mauser em um momento muito bem encaixado.
Por falar em trilha sonora, a presença ostensiva do pop dos anos 1980 em um filme cuja história se passa na década de 1950 não é tão simplesmente o fetiche de um cineasta nascido em 1984, desejando emular a nostalgia que a década de 80 tinha pela de 50. Marty Supreme é uma paródia do cinema yuppie, triunfalista, dos anos 80 e suas “inspiradoras” histórias vitoriosas, principalmente a partir de protagonistas underdogs em contextos de competições esportivas – os exemplos que mais me vêm imediatamente à cabeça são Falcão, O Campeão dos Campeões (“Over The Top”, 1987, Menahem Golan) e o perene The Karate Kid (1984, John G. Avildsen). Mas o meu leitor, ou leitora, que já viu o filme, poderá perguntar: “peraí, mas Marty Supreme não é um filme igualmente triunfalista? Você mesmo disse que é o oposto de Uncut Gems!”
Sim. Marty Supreme é um filme de vitória, enquanto Uncut Gems é um filme de derrota. Mas não endossa o discurso ultra-individualista e ultra-liberal do cinema industrial dos EUA nos anos 80. Não se partirmos de dois pontos de análise: 1. o elemento judaico do filme; 2. uma proposta de categorização de gênero do fime como uma narrativa picaresca. Vamos começar por este segundo elemento. Marty Mauser possui, nitidamente, muitos atributos comportamentais do trickster – o arquétipo do engodo, o Loki da mitologia nórdica (e do MCU). Na cultura brasileira, uma das manifestações do trickster é o malandro; na cultura de expressão hispânica, o pícaro.
Poderíamos chamar Howard Ratner (o protagonista de “Joias Brutas”) de malandro, mas no sentido mais negativo do termo: o bandido inescrupuloso, malicioso, movido exclusivamente por um apetite vicioso e uma ganância desmedida; o malandro rico, safado, sem-vergonha, cafajeste, como diríamos desavergonhadamente no Brasil. Marty Mauser é o pícaro, dotado de índole malandra, mas malandro na prática por necessidade, apenas. Nascido pobre e judeu, tendo que se virar como pode nos EUA pré-direitos civis, cercado por sobreviventes do Holocausto (é muito forte a sua fala de que a própria figura dele – no corpo esquálido de Timothée Chalamet – é prova incontestável da derrota de Hitler), Marty sabe que suas oportunidades reais de ascensão social (para além do Gueto) são muito, muito escassas.
Motivado por um pragmatismo inabalável, ele faz o que tem que fazer para alçar posições que lhe são negadas e que correspondem ao seu talento verdadeiro, enquanto atleta de tênis de mesa, mesmo que isso signifique que ele tenha que enganar e prejudicar outras pessoas (no entanto, ninguém que não tenha também a sua própria culpa em cartório e não mereça igualmente alguma punição – Marty Supreme é como uma aventura de Pedro Malasarte contada por Rubem Fonseca). A resposta que ele dá para a personagem de Gwyneth Paltrow, quando esta lhe pergunta como ele planeja conquistar a próxima refeição, poderia estar na boca de qualquer pícaro, do Lazarillo de Tormes (século XVI) ao Chaves (sim, “El Chavo del Ocho”, vivido pelo eterno Roberto Gómez Bolaños).
Agora, quanto ao elemento judaico. Dara Horn, escritora estadunidense e professora universitária no campo dos estudos literários, afirma, em seu livro intitulado People Love Dead Jews (lançado no Brasil como “As pessoas amam judeus mortos”), algumas diferenças essenciais entre narativas judaicas (feitas sobre judeus por judeus) e narrativas não-judaicas (feitas sobre judeus por não-judeus, ou feitas sobre não-judeus por não-judeus, principalmente por cristãos): é muito comum que narrativas cristãs se estruturem em volta de momentos fundamentais de revelação ou mesmo epifania que levam à inevitável redenção (naturalmente, por intermédio das estações de contrição e de perdão).
Nada disso acontece em narrativas judaicas, pensadas a partir de experiências históricas do povo judeu. Redenção, no campo histórico, é um luxo de que o judeu raramente dispõe, ou já dispôs em algum momento, se é que dispôs. Segundo Dara Horn, as narrativas judaicas (na Literatura, pelo menos) se caraterizam por personagens que resistem como podem às forças destruidoras do meio, agindo segundo a própria natureza os dispõe a agir tendo em vista as necessidades a serem satisfeitas. Não há grandes epifanias, muito menos redenções por parte de forças salvíficas externas. O judeu está entregue à própria sorte, por suas próprias forças, como sempre. O judeu errante, arquétipo-mor do pária.
Isso não quer dizer, logicamente, que as histórias judaicas (e a História judaica) sejam necessariamente narrativas picarescas. Mas o picaresco não é estranho ao judeu. E, neste aspecto, Marty Supreme é também um filme de vitória anti-triunfalista, autoafirmando a resiliência judaica e satirizando qualquer triunfalismo que vá além da vitória dos excluídos (uma vitória que, verdade seja dita, está mais para consolação do que para vitória de fato). Marty Mauser não é nenhum herói, muito longe disso. Anti-herói seria uma palavra boa, se já não estivesse tão abusada e desgastada. Marty Mauser é apenas alguém que sabe a vida que tem e sabe que as coisas não têm volta. Welcome to your life, there’s no turning back.
Deixe um comentário