O Agente Secreto

A memória sempre ocupou uma posição central no cinema de Kleber Mendonça Filho, à moda benjaminiana. Aquarius (2016), Bacurau (2019) e Retratos Fantasmas (2023) são filmes que, como o Anjo da História em Walter Benjamin, testemunham a acumulação de destroços do passado enquanto sopra irrefreável a tempestade do progresso. A memória, o documento, o registro são como tentativas de restaurar o que foi (ou está ameaçado de ser) destruído: em Aquarius, o edifício clássico; em Bacurau, a comunidade tradicional (que luta com as armas preservadas no pequeno museu histórico do vilarejo); em Retratos Fantasmas, o antigo cinema São Luís em Recife.
Seguindo firme dentro dessa linha, O Agente Secreto (2025) é a forma mais bem acabada de reflexão histórica a partir da filosofia de Benjamin, empreendida por KMF. É impressionante a maturação da obra do cineasta, transcorrendo regularmente ao longo desses quatro filmes até chegar a um ponto máximo (máximo? vamos ver o que o futuro reserva). Coisa rara na filmografia de um diretor, KMF demonstra muita assertividade nos temas, nas teses e nos recursos estilísticos que escolhe para o seu cinema. O passado, entendido como destroços que podem ou não ser recuperados, pontua quase todos os momentos de O Agente Secreto, que desnvolve uma narrativa longa sem nunca perder o ritmo ou a relevância.
Já na primeira cena, vemos o cadáver anônimo, largado ao ar livre como dejeto, como destroço indesejado, sem nunca ser recolhido, processado e “arquivado” pelas autoridades civilizatórias que representariam a marcha oficial do progresso. Através de uma panorâmica que começa com um plano geral do cenário em plongée e termina enquadrando o cadáver com um primeiro plano em contra-longée, mostrando, em profundidade de campo, o carro onde se encontra o protagonista, KMF já demonstra ao espectador que a memória (vista como destroço; particularmente a memória da morte) será mantida sempre no primeiro plano da narrativa, estando todos os outros elementos subordinados a ela.
O personagem principal, vivido por Wagner Moura, passará o filme inteiro à cata de qualquer documento oficial que comprove a memória da sua mãe já falecida, mesmo sob ameaça de morte. A misteriosa perna putrefata, encontrada dentro das entranhas de um tubarão, é outro destroço significativo, ainda mais porque revela (na verdade, esconde) um crime cometido pela repressão estatal, durante a ditadura civil-militar de 1964-1985. Esse motif dará ensejo a que KMF expresse, de maneira bincalhona mas que se encaixa tranquilamente dentro da estrutura do filme de ir catando destroços de memória, sua rememoração dos filmes de exploitation da década de 1970.
O Agente Secreto também demonstra, como precisa ser mais demonstrado pelo cinema nacional, o como não podemos falar tão simplesmente em “ditadura militar”, mas em ditadura civil-militar. A memória daquele período é algo que o Brasil ainda está muito longe de processar de maneira adequada e definitiva, ao contrário de outros países que também sofreram períodos de barbárie institucionalizada. Aqui, mais do que em qualquer outro lugar, imperam destroços, alguns quase irreconhecíveis: o empresário corrupto, metido até o pescoço em relações espúrias com a máquina estatal, empresário esse que colocará em movimento seus próprios instrumentos repressivos.
Na meta-narrativa do filme, que se passa nos dias atuais, e nos mostra duas jovens pesquisadoras enfiadas em fitas-cassete com gravações de entrevistas e depoimentos, e micro-filmes de jornais antigos, tentando extrair algum sentido, alguma narrativa daquele período tenebroso dos anos 70, lutando para restaurar os destroços de um passado esquecido insepulto ao ar livre, o que será feito desse empresário criminoso? Não sabemos. Mal sabemos a respeito do destino final do protagonista – o que levou parte da crítica a reclamar do “anti-clímax” e do “desequilíbrio” narrativo no final do filme; mas, na minha opinião, isto também se encaixa na lógica benjaminiana da narrativa que tenta resgatar destroços mal-recuperáveis de uma tempestade.
Outros mortos-destroços que compõem a procissão de finados que é O Agente Secreto: a esposa do protagonista, a neta de Dona Sebastiana, o cinema São Luís. E aquele que, ao meu ver, é o mais sutil e brevemente apresentado, mas o mais importante de todo o filme, com uma ressonância ensurdecedora no desfecho da narrativa: o personagem de Udo Kier. A cena dele é devastadora porque não expressa o apagamento do destroço em si, mas o apagamento semântico do destroço, confundido com símbolo do progresso e condenado a uma memória idólatra como documento vivo daquele, não sem uma dose de cruel ironia: o partisan judeu alemão, idolatrado como ex-soldado nazista pelos estúpidos policiais brasileiros.
O sentimento de impotência, de ofensa, de cansaço e desespero na voz de Udo Kier são o momento singular mais dramático de todo o filme. E revela, afinal, o poder muito limitado que temos em manejar os destroços-memória do passado (para não dizer a falta absoluta de poder que temos em manejar a “tempestade” do progresso). A grande frustração que sofre a jovem pesquisadora na cena final do filme, nos dias atuais, espelha a impossibilidade, primeiro revelada na cena com Udo Kier, de restaurarmos os destroços do passado em um painel coeso, coerente e autêntico.
O motivo dessa frustração é diferente do que vemos na cena com Kier, mas espelha um fato que o povo judeu conhece muito bem: ainda não se completaram 50 anos desde 1977; os sobreviventes da Shoah precisaram de pelo menos 40 anos até conseguirem processar e narrar as memórias de suas vivências traumáticas (resultando, por exemplo, na obra-prima que é o filme Shoah, de Claude Lanzmann, lançado em 1985). Assim, a recusa que a jovem pesquisadora sofre em receber um depoimento que seria fundamental para restaurar os destroços do passado não é nem um pouco descabida ou anti-climática dentro da economia narrativa do filme, como quer parte da crítica.
Pelo contrário, revela uma intensa, posto que melancólica, sabedoria por parte de Kleber Mendonça Filho, índice inquestionável do processo de maturação de sua obra fílmica: enquanto Bacurau se apresenta como um chamado carpenteriano à insurreição, O Agente Secreto, a partir da ironia do seu título (para quem esperava um novo Bacurau) e do disfarce narrativo através dos códigos do cinema de gênero (o thriller político), traz ao espectador nada mais do que a enunciação serena de um desencanto antonioniano / bergmaniano, com personagens que perambulam para lá e para cá, exilados no mundo, sem nunca alcançar resposta alguma.
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