Suas idiossincrasias, suas forças e fraquezas, suas contradições são no fundo simples e esquemáticas, apesar – repito – do virtuosismo absurdo de Day-Lewis. Daniel Plainview (o sobrenome significa, ironicamente, “visão plana, achatada”) não é o herói (ou vilão, ou anti-herói) shakespeariano que se tem em, por exemplo, no Michael Corleone (Al Pacino) da série O Poderoso Chefão (“The Godfather”), de Francis Ford Coppola. É claro que isso não seria em princípio um defeito. E se o filme quisesse mostrar, de fato, um homem pequeno e ridículo que se acha por demais grande? (Aí, toda a afetação de Daniel Day-Lewis ficaria muito bem empregada). Mas, se fosse este o caso, seria mais interessante o filme adotar uma postura irônica – ou, pelo menos, suficientemente distanciada – em relação ao personagem, coisa que Paul Thomas Anderson não fez.
Contudo, por outro lado, Sangue Negro não é tão apologético assim em relação ao seu herói, e isso faz parte das qualidades do filme, que podem ser atribuídas ao seu diretor. Paul T. Anderson filma a ascensão de Daniel Plainview com um tom de estranhamento, presente principalmente na trilha sonora: graças a ela, a primeira imagem do filme é, ao mesmo tempo, de uma naturalidade tranqüila e de um estranhamento que leva quase ao pânico. Esse estranhamento – que transforma em misterioso e amedrontador algo que é, em princípio, familiar – faz parte da estética surrealista (eu já discuti o processo neste blog, na postagem referente ao Eraserhead de David Lynch). Surrealismo que está mais presente e evidente em Embriagado de Amor (“Punch-Drunk Love”, 2002) e especialmente em Magnólia (1999), ambos de Anderson, que surgiu para a fama com Boogie Nights (1997).
Dentro de um “surrealismo realista”, também são muito fortes algumas outras imagens da película: 1. a imagem do trabalho árduo de garimpagem feito por Plainview no começo do filme: é a solitária, persistente e angustiante luta do homem contra a natureza, para penetrar na mãe-terra e extrair dela algum sustento e algum sonho (pena que o resto do filme não invista muito nesta temática); não há qualquer fala nos quase 10 primeiros minutos de filme, concentrados nesta tarefa ao mesmo tempo tão cotidiana mas digna de um Prometeu (eis o bom Cinema); 2. o rosto negro de Day-Lewis, coberto de petróleo; 3. a torre de perfuração em chamas dia e noite, com o jorro incandescente do “ouro negro”; 4. os cultos protestantes para lá de “pentecostais”; 5. o rosto sempre imutável (com um leve sorriso quase irônico) do calado filho de Daniel Plainview, H. W. (aliás, esta sigla significa o quê?).
Mas há coisas que deixam a desejar. O desenlace que teve a personagem de H. W. parece muito sumário para a importância que o rapaz vinha tendo ao longo do filme. No conjunto das grandes ambições temáticas do roteiro, algo acabou ficando de lado, esquecido assim como o Sr. Plainview se esquecera do Sr. Bandy. Como eu disse no começo, é difícil juntar e trabalhar equilibradamente tantos elementos. O todo corre muito o risco de ficar desigual, assimétrico, apesar de muitos elementos e momentos serem da mais alta grandeza. O melhor da história é, com certeza, a relação entre o barão do petróleo Daniel Plainview e o jovem pregador Eli Sunday. Ambos são o mesmo tipo de homem: inteligentes, ambiciosos até as raias da obsessão, talentosos – até virtuosos – no que fazem, manipuladores das vontades alheias: são grandes vendedores, discursadores.
Entretanto, cada um representa uma força que é a mais eternamente oposta e antagonista da outra: Plainview é o mestre da matéria, enquanto Sunday é o mestre do espírito. É a velha antítese entre os planos platônicos. Não obstante, como todo bom platônico também deve saber, esses planos vão se misturar, interferindo mutuamente um no outro, dialeticamente. A linha narrativa que realmente interessa no filme, a que tem maior força e significado, é a que se desenvolve entre o relacionamento Plainview / Sunday: no seu começo, desenrolar e conclusão. Temos aqui um verdadeiro tour de force, que só pode dar certo quando se dispõe de atores capazes para tanto: assim sendo, palmas para Daniel Day-Lewis e para Paul Dano. Boa parte das mais de duas horas e meia da projeção poderiam ser reduzidas e condensadas em torno das cenas que envolvem esses dois personagens, seja cada um em si mesmo, seja na relação entre eles. Mas é pelos passos desequilibrados deste Sangue Negro que eu acabo ficando com Onde Os Fracos Não Têm Vez na disputa do Oscar de melhor filme, neste domingo.

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