Sweat (2020)

O filme é longo. E logo na primeira cena, o demorado “show” de fitness que faz a protagonista influencer Sylwia (Magdalena Kolesnik) em um shopping center de Cracóvia, já sentimos qual será a cadência de Sweat (Polônia / Suécia, 2020, dir.: Magnus von Horn), assim como o seu peculiar tom de estranhamento quase horrorífico ou surreal. Acredito que essas duas sejam suas maiores qualidades e combinaram muito bem com o tema e a personagem principal: uma investigação da vida e da subjetividade de uma típica celebridade da internet.

O andamento é mesmo bastante arrastado (sem que isto seja qualquer defeito; pelo contrário) e propositalmente incômodo, não tanto pelo tédio que pode provocar no espectador mais apressado, mas por nos imergir e prender a um universo, a uma vivência no mínimo constrangedores. E acompanhamos pacientemente as mais de duas horas de duração do longa com uma tensa inquietação, como se, a qualquer momento, o filme pudesse descambar repentina e completamente para o body horror de um Cronenberg ou de um Refn (Neon Demon, 2016).

No entanto, o diretor e roteirista sueco Magnus van Horn não deixa de demarcar a humanidade (ou o que sobrou dela) e a fragilidade da protagonista, que vive em função das redes sociais – sua vida pessoal, “real”, define-se pela solidão (amorosa e de amigos) e pelo distanciamento da família (formada por normies). Mesmo assim, essa humanidade se desenha mais pelo traço da tragédia (no sentido clássico do termo: o sujeito perdido no meio de forças que não controla, sequer compreende, destruído por elas), do que em um sentido romântico moderno (a autoafirmação do Eu contra todas as forças que o reprimem).

A última cena retoma o começo do filme, fechando um ciclo (vicioso) e reforçando que o que vemos nas telas (cinema, TV ou smartphones)e tomamos como o rosto de Sylwia não passa, na verdade, de uma máscara, de uma persona (mais uma vez, o teatro grego clássico). E reforça, principalmente, que não há como conhecer o rosto que existe por trás da máscara. Não há como sequer saber SE existe um rosto por trás da máscara. Não porque se trate de um autômato. Mas porque o ser humano individual que existia por trás da máscara talvez se tenha perdido faz tempo, irremediavelmente.

Sweat está disponível no MUBI.

Uma resposta para “Sweat (2020)”.

  1. Eu penso que os suecos são especialistas neste “cozinhar lentamente” um enredo para filme.
    Cinema na Polônia uma novidade para mim.

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