Eric Rohmer definiu o cinema como “a arte clássica do século XX”. Com certeza, ele tinha em mente o cinema de Hollywood acima de tudo. A decupagem clássica hollywoodiana, principalmente entre os anos 1930 e 1950, só pode ser superada pela literatura greco-romana da Antiguidade, ou por suas muitas expressões posteriores – as diferentes renascenças, classicismos e neoclassicismos. Uso o termo clássico aqui segundo a definição de equilíbrio sereno entre forma e conteúdo (Rohmer, certamente, também seguia o mesmo conceito).
Darren Aronofsky não é, seguramente, um cineasta conhecido majoritariamente por “equilíbrio” ou “serenidade”: um filme como Mother! (2018) é uma bomba atômica de barroquismos. Ou Cisne Negro (2010). Mas não tanto um filme como O Lutador (2008). Pois bem. A Baleia é uma grata retomada de um Aronofsky mais clássico. O roteiro certamente contribui, baseado em uma peça teatral que é, de fato, prenhe de teatralidade: unidade de lugar, de ação, uma semi-unidade de tempo (um tempo altamente concentrado) e um foco no personagem central que cria uma atração centrípeta inescapável, ainda que carregada de provocações grotescas – Aronofsky não quer se livrar completamente da veia barroca.
O problema maior de todo clacissismo, do qual Aronofsky não escapa e pelo qual também é conhecido, é a inclinação às vezes irresistível para o academicismo. Tudo, absolutamente tudo em The Whale é fruto de um pensamento milimetricamente calculado em função de um significado unívoco: desde o aspect ratio do enquadramento (4:3) até as meticulosas redes metafóricas que são trançadas entre os personagens, suas histórias, o figurino, o cenário etc. Não há espaço algum para o ambíguo (o final do filme não passa de exceção que confirma a regra), o cotingente e o mistério que, mais do que tudo, formam o tecido de nossas vidas neste mundo.
Tudo precisa estar evidente, ainda que em forma simbólica, tudo precisa ser revelado com a solenidade de uma epifania. A razão clássica não admite pontas soltas. É claro que tudo isso pode ser atribuído à gênese teatral do filme, admitindo-se aqui um teatro rigorosamente clássico: recorte sublimado do real que nos dá acesso a verdades de ordem cósmica. Mas, no caso de Aronofsky, é difícil chacoalharmos para longe a sensação de que tudo, mais do que acadêmico, é esquemático, mecânico, superficial como um manual de realização cinematográfica que ensina até mesmo a montar as peças alegóricas de um filme.
Isso entra em franca contradição inclusive com a própria “mensagem” de The Whale, reforçada pelo personagem de Brendan Fraser, a respeito de se deitarem fora regras e padrões, e abraçar a subjetividade indisciplinada, autêntica, romântica. Se o filme, ainda assim, preserva forte carga emocional e autenticidade humana, é graças à interpretação dedicada e intensa de Fraser. A avaliação final é que The Whale é um ótimo filme para introduzir jovens à cinefilia, ao potencial expressivo da arte cinematográfica. Mas quem já é experiente, principalmente na obra de Ingmar Bergman, não ficará tão deslumbrado com o espetáculo de sofisticada prestidigitação que é o cinema de Darren Aronofsky.
A Baleia (“The Whale”, EUA, 2022, dir.: Darren Aronofsky). Indicado a 3 Oscars, incluindo melhor ator para Brendan Fraser. Estreou nos cinemas brasileiros dia 23 de fevereiro.
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