O melhor cinema traz grandes verdades humanas, ainda que desconfortáveis, dolorosas, cruéis (veja Ozu, Tarkovski, Bresson, Bergman, dentre tantos outros). No extremo oposto, o pior cinema traz nada mais do que falácias, mal disfarçadas de pérolas de sabedoria tiradas da subliteratura de autoajuda mais rasteira. Assim, um filme realmente ruim não é tanto um filme formalmente mal feito, quanto um filme ardiloso e pernicioso em seu discurso, um filme que coloca mentiras como se fossem verdades, diminuindo o cinema, diminuindo o mundo, diminuindo o ser.
É bastante preocupante, para dizer o mínimo, que Shyamalan tenha adotado e endossado de maneira tão descarada (apesar de que sutileza nunca foi o forte do diretor, acostumado que está a falar demais – enquanto intencionalidade autoral – dentro de seus filmes, em vez de deixá-los falarem por si mesmos) a premissa desse seu mais recente longa, Knock at The Cabin (baseado em um romance que, segundo outros críticos, é mais sutil e ambíguo do que esta versão cinematográfica). Causa consternação que ele tenha dado o desenvolvimento que deu a tal premissa; que tenha dado, principalmente, a conclusão que deu a ela.
Em um mundo que vem atravessando três anos de uma pandemia mortal, com centenas de milhares (talvez milhões) de vidas que poderiam ter sido poupadas se fanáticos espalhadores de mentiras não tivessem tanto poder. Em um mundo que vem enfrentando a ameaça renascida de uma extrema-direita nazi-fascista, alt-right, ou o diabo como se queira chamá-la, com todo o ódio espumante contra todas as minorias (particularmente a população LGBT), sem falar nos atos de violência: linchamentos, homicídios. E mais mentiras sendo espalhadas impunemente.
Neste mesmo mundo descrito acima, o “debate” que Shyamalan propõe sobre “fé”, sobre “sacrifício”, sobre “ética”, sobre “amor” e sobre o “fim do mundo”, nos termos em que ele propõe, com os argumentos que ele apresenta e com a conclusão à qual ele chega, esse “debate” só pode servir para atiçar as fantasias mais sádicas dos sociopatas fascistas mais perigosos. Tomando emprestada uma imagem literária usada por Hunter S. Thompson em Medo e Delírio em Las Vegas, o cinema de Shyamalan seria o paradigma de entretenimento, arte, filosofia e religião caso a direita de Richard Spencer e Alex Jones governasse o mundo.
Shyamalan sempre teve pretensões de “grande pensador” a respeito de “grandes questões”. Mas seus filmes sempre foram rasos e incoerentes como mensagens motivacionais espalhadas no WhatsApp. O problema não é a simplificação ou o didatismo em si mesmos, se estes tivessem uma proposta de tornar mais acessíveis as maiores reflexões já produzidas. O problema é que o cinema de Shyamalan sempre exalou aquele odor de condensações, distorções, sínteses grosseiras e levianas (mas sempre com um verniz de “alta sabedoria”) preparadas com o intuito exclusivo de se formatar um produto a ser consumido pelas massas.
Filosofia fast-food, religiosidade fast-food. Filmes como The Happening (2008) sempre estiveram muito claramente identificados com essa banda mais podre da indústria cultural. No entanto, Fim dos Tempos, revendo agora, é até um bom filme perto desta nulidade que é Batem à Porta. Pretender que essa vergonha discuta “fé” ou “sacrifício” é não entender absolutamente coisa alguma desses dois grandes temas, é nunca ter tido contato algum com nenhuma outra reflexão ou manifestação cultural desses temas – comportamento típico do prepotente: lançar o seu “take” como se fosse o primeiro a descobrir ou a pensar sobre o assunto.
Fé e sacrifício, colocados nos termos em que Shyamalan coloca, podem talvez até encontrar ressonância em alguma sociedade antiga já há muito desaparecida. Mas não dizem nada – repito: nada – para sociedades democráticas contemporâneas. São mitologias mortas, que só podem subsistir no modo “zumbi” não por acaso adotado por qualquer fundamentalista, extremista, obscurantista et caterva. O “dilema” que Shyamalan coloca não passa de um falso dilema, que não se sustenta em nenhum sistema de pensamento místico-religioso sério que ainda seja adotado como identidade espiritual de qualquer pessoa que seja hoje em dia.
Li uma colega crítica dizer que o romance no qual se baseia Knock at The Cabin mantém uma dose de ambiguidade que faz, logicamente, toda a diferença do mundo, que é o coração sem o qual uma história dessas, com uma premissa dessas, não sobrevive. É o sopro de vida, a divina graça. Shyamalan arremessa ao lixo toda e qualquer ambiguidade. Com gosto. E, com isso, mata a sua história. É de ficar pasmo com isso. Lembra aqueles “boys” que têm em mãos uma garrafa fechada do melhor whisky 25 anos: simplesmente diluem tudo em energético e vão curtir a “balada”. Shyamalan é isso. Sempre foi.
Imagino Shyamalan fazendo o pitch do filme: “é um mash-up de The Sacrifice com Funny Games; pensem na ternura de um Tarkovsky misturada com a crueldade de um Haneke.” Mitou demais, fera! (Alerta de ironia.) Que o espectador faça um favor a si mesmo: vá ver O Sacrifício e vá ver Funny Games. P.S.: eu sacrificaria quem quer que seja para ter de volta as duas horas que decidi dar a Batem à Porta, um erro crasso. Acho que chega. Vejo todos os filmes de Shyamalan, na época de lançamento, desde 1999, tentando ignorar os problemas e focalizar as qualidades, mas para quê? O cara é isso, não adianta esperar algo diferente.
“Batem à Porta” (“Knock at The Cabin”, EUA, 2023, dir.: M. Night Shyamalan). Atualmente em cartaz nos cinemas brasileiros e disponível no exterior em formato digital online via VOD (video on demand).
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