Menus-Plaisirs Les Troigros
Menus-Plaisirs (2023) se afasta, de maneira curiosa (ou mesmo incômoda), dos dois documentários recentes mais conhecidos de Frederick Wiseman: City Hall (2020) e Ex-Libris (2017). Nesses dois filmes, por trás do estilo direto de Wiseman, assoma uma quase profissão de fé em defesa entusiasmada da democracia e dos valores democráticos: as instituições públicas, o livre debate de ideias, a horizontalidade em instâncias decisórias etc.
Nada disso vemos em Menus-Plaisirs, que se debruça sobre um restaurante francês de altíssimo padrão, empresa privada e controlada pela mesma família há duas gerações. Poderíamos perguntar: o que poderia ter provocado, no documentarista, tamanho desvio de foco? Talvez, na concepção de Wiseman, não haja contradição alguma, se atentarmos para um traço semântico específico que conecte os três longas citados.
Eu me refiro ao princípio civilizatório que está por trás da visão democrático-liberal que vai de Thomas Hobbes e John Locke, passa pela Revolução de Independência dos EUA e desagua na Revolução Francesa. Dentro disso, a prefeitura de Boston, particularmente a administração de Marty Walsh (2014-2021), em City Hall, e a biblioteca metropolitana de Nova York, em Ex-Libris, funcionam ambas como totem de uma elevação que não deixa de ser também moral.
Em Menus-Plaisirs, essa elevação não se dá pela via da gestão pública geral, mas por um caminho mais parecido com o de Ex-Libris: a preservação e difusão de um patrimônio cultural e artístico, mesmo que esta se realize por meios privados (e altamente elitistas, convenhamos dizer). Para Wiseman, e mais ainda para os franceses, a culinária fina é indício de identidade coletiva, de uma civilização vitoriosa em meio à barbárie do estado de natureza.
Portanto, existe uma lógica no recorte proposto em Menus-Plaisirs; porém, essa racionalidade não é suficiente para recalcar os problemas que vêm no bojo desse mesmo recorte – problema comum no pensamento liberal. Gastronomia, cultura bibliófila e democracia podem ser, sim, índices civilizatórios no melhor sentido do termo; mas existe todo um universo de diferenças que dependem do fato de esses bens imateriais estarem em mãos públicas ou privadas.
E aqui chegamos aos problemas deste último filme-ensaio wisemaniano, em cenas que provocam no espectador consciente um constrangimento que não fica devendo em nada ao sentimento de “cringe” que apreciamos nos melhores mockumentaries, com a diferença – ainda mais constrangedora – de que, aqui, esse constrangimento NÃO faz parte de intencionalidades satíricas por parte do cineasta.
Por exemplo, a cena em que os chefs manuseiam e discutem o destino de lagostins vivos que vão sendo amontoados, uns sobre os outros, em uma travessa grande de plástico: serão cozinhados vivos? Sabemos que esse é um hábito da haute cuisine. Ou a cena em que os chefs decidem incluir foie gras no cardápio – quem gosta de detalhes sórdidos, pesquise: foie gras representa uma crueldade animal das mais descaradas, mascaradas de “fina iguaria”.
A propósito: foie gras é proibido pela legislação brasileira, e existem movimentos internacionais pelo banimento desse “prato”, sob protestos indignados de chefs, logicamente. Ou ainda a cena na qual os gerentes discutem a compra e venda de garrafas de vinho que custam acima de 5.000 euros cada uma, com a naturalidade blasé de connoisseurs e o vivo interesse pecuniário de feirantes combinando o preço de batatas.
Sem contar as sofisticadas conversas entre o chef dono do restaurante e clientes sentados à mesa, conversas em que mal se disfarçam o esnobismo, a vaidade, o pedantismo, as falsas simpatias e, no geral, o enfado de quem sabe estar cumprindo não mais do que papéis sociais de classe em defesa dos seus próprios interesses mesquinhos, em obediência disciplinada às regras do jogo que Jean Renoir já demonstrou, cinematograficamente, de forma definitiva.
Isso não é arte, não é cultura. É fetiche da mercadoria. Não é civilização, no sentido iluminista-democrático; é ultra-civilização no sentido aristocrático-rococó do Ancién Régime. Não intencionalmente, essas cenas remetem a Harun Farocki: veja Os Criadores dos Impérios das Compras (“Die Schopfer der Einkaufswelten”, 2001), em que ele filma, à moda wisemaniana, a construção de um shopping center; porém, sob perspectiva crítica.
Jacques Tati (Playtime, 1967) é outro que saberia filmar a liturgia de gestos, posturas e movimentação de corpos dentro de um restaurante gourmet com a devida – e sutil – dose de derrisão. Sim, porque apesar da aparente e franca reverência de Wiseman, não conseguimos chegar ao fim das quatro horas de duração de Menus-Plaisirs sem um retrogosto amargo de vazio. Wiseman pode ter tido a intenção de ser irônico? Sim. Mas falhou miseravelmente.
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