Perfect Days

Eu nunca canso de citar a dedicatória que Wim Wenders faz, em Asas do Desejo (1987), aos seus mestres, à sua “família sobrenatural” – no dizer do poeta Murilo Mendes. O cineasta alemão dedica o seu filme a todos os “ex-anjos”, especialmente a “Yasujiro”, a “Andrei” e a “François”. Mas quem são esses três anjos rebeldes, anjos caídos que, mesmo abdicando da própria imortalidade, elevam a nossa condição mortal?

Nós, pobres mortais que não temos a mesma intimidade que Wim Wenders tem com eles, podemos conhecê-los pelos sobrenomes – famosos sobrenomes. Respectivamente: Ozu, Tarkovski, Truffaut. E o que faz, na teogonia de Wenders, com que esses três grandes cineastas sejam categorizados como angelicais? Pois há muitos aspectos da arte cinematográfica deles que sugerem mais diferenciação do que analogia.

Os filmes de Ozu, Tarkovski e Andrei são vivificados por uma alegria de viver (jouie de vivre), por uma disposição ao encontro com o Outro, por uma atenção carinhosa e preocupada com o ser-estar no mundo em suas implicações fenomenológicas mais fundamentais. É claro que, a partir desse ponto, eles vão trilhar caminhos diferentes: em Truffaut, essa alegria é mais espontânea, jovial e brincalhona, até mesmo travessa.

Em Tarkovski, imperam ponderações e angústias existenciais; porém, sem nunca deixar de dizer “sim” à vida. Em Ozu, vemos a serenidade zen do cotidiano, dos afetos, das relações familiares. Mas o que há de angélico nessa fenomenologia, na visão de Wim Wenders? É aqui que entram os anjos e ex-anjos de Asas do Desejo: são criaturas espirituais que não se contentam em servir de apenas testemunha para a graça e a tragédia de estar vivo.

Esses anjos anseiam por participação: querem fazer parte da História, querem ser construtores da sua própria história individual; querem ser, antes de mais nada, indivíduos, isto é, sujeitos diferenciados de outros sujeitos, objetos aos olhos de outros sujeitos e sujeitos que terão outros sujeitos como objetos – no caso específico do filme de Wenders, objetos da libido, do desejo erótico-amoroso, atributo-mor do ser humano, segundo Octavio Paz (A Dupla Chama).

O amor à vida e a paixão pelo ser e estar é o que define os anjos caídos de Wim Wenders, além de uma pureza, ou mesmo uma ingenuidade nos gestos, nos comportamentos, típica de quem literalmente “nasceu ontem” – em termos visuais, os anjos de Wenders, sem asas e vestidos de sobretudos, inspiram-se na pureza ética e na (falsa) ingenuidade do detetive Columbo, protagonista da melhor série de TV de todos os tempos (Columbo, 1971-1978).

Não é à toa que o próprio Peter Falk (grande Peter Falk!), que interpreta Columbo, faz uma ponta para lá de especial em Asas do Desejo, interpretando a si mesmo como um ex-anjo – logicamente – que escolheu esta vida, este mundo. Mas qual é a relação de tudo isto com o filme novo de Wenders? Muito simples: Perfect Days (2023) é o filme que mais e melhor retoma Asas do Desejo, a obra-prima do cineasta (não, este posto não é de Paris, Texas).

Carregando de cabeça erguida todo o peso da influência de Ozu (aprendam, cineastas medíocres que só sabem criar pastiches), Wim Wenders escreve com sua câmera uma “História da Carochinha para adultos”, no dizer de Guimarães Rosa: um bonito conto de amor e entrega à vida e ao ser-estar no mundo, sem negligenciar as suas contradições – a infame questão social, que, antes, aparecera só em Far Away, So Close (1993), sequência de Asas do Desejo.

Curiosos são os contrastes: Perfect Days é como uma visão existencial-materialista de Asas do Desejo: a “imortalidade” da qual o protagonista Hirayama (Koji Yakusho) se liberta é a sua condição imutável e não-autônoma de herdeiro de um pai rico e cruel (é só isso o que sabemos); como um ex-anjo, Hirayama fugirá para construir a sua própria história, o seu próprio ser no mundo, como um humilde faxineiro de banheiros públicos.

Apesar de o amor erótico-romântico não ser a demanda central de Hirayama, ele também se fará presente, além do amor familiar: a irmã e a sobrinha do protagonista. Hirayama fará até mesmo o trabalho de um anjo, ao confortar o ex-marido de sua amiga dona do bar que frequenta, o qual está morrendo de câncer. Porém, o conforto não é invisível: nasce da interação concreta e muito humana entre os dois homens, ambos plenamente individualizados.

E aqui temos aquela que é, talvez, a metáfora mais bela do filme e da fenomenologia de Wenders: Hirayama e o homem moribundo fazem um teste empírico para desobrir se a sombra de uma pessoa, posta sobre a sombra de outra, forma uma sombra mais escura. O resultado é não: as duas sombras se amalgamam como que em uma só, como se fosse uma pessoa só. A interação, graça maior da Vida, implica comunhão. Uma verdade que tanto esquecemos.

2 respostas para “Perfect Days”.

  1. Tenho ouvido falar neste novo filme. Preciso vê-lo! Paris, Texas é inesquecível.

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    1. Sim. Também adoro Asas do Desejo.

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