Mal Viver é um filme de horror, para muito além do melodrama. Mas não o horror típico dos monstros à espreita e dos jump scares. Tampouco o horror de atmosfera ou o horror conceitual: folk horror, post-horror, chame do que quiser. Mal Viver é um filme de horror, porque traz o horror mais primevo, desde que o ser humano conquistou a consciência, horror que abastece pesadelos e consultórios de pscanálise: o horror das relações familiares (filiais e parentais), essa quimera de amor, ódio, ressentimento, projeção, narcisismo, negligência, compromisso, comprometimento.
Sim, para muito além do que se costuma ver em animações infantis da Disney feitas sob medida massificada para aquecer os corações das famílias em um dia de domingo, sentadas à frente do altar-TV, a família pode ser uma força centrípeta arrebatadora, irresistível (a mera força da vontade não pode opôr-lhe resistência); um buraco negro implacável, impiedoso, que arrasta tudo que caia em seu horizonte de eventos inescapável para o núcleo insolúvel, infinito, infernal. O cinema já tratou da família nessa dimensão macabra em algumas obras-primas, de Persona ao Poderoso Chefão.
O que assusta, particularmente, no filme mais recente do cineasta lusitano João Canijo é a sensação de claustrofobia psicológica dentro do hotel no qual se passa o filme em sua totalidade, dentro da família que o administra, dentro da pele de cada uma das mulheres dessa família. O hotel parece mal assombrado, as pessoas parecem mal assombras, como se arrastassem algum espírito malévolo; na verdade, espírito atormentado, sem descanso em sua busca por atenção, por afeto, por pequeno poder, por retaliação – esse espectro é bem conhecido dos psicanalistas.
Os planos rigorosamente enquadrados de Mal Viver exploram até os últimos recônditos o tópos (tema) literário-gótico do imóvel residencial que é projeção simbólica da psique, em sua nobre decadência, com seus cômodos trancados, secretos, semi-esquecidos, prestes a desmoronar. Imagem essa que vem de Poe (A Queda da Casa de Usher) e vai até Cortázar (A Casa Tomada). No filme de Canijo, essa imagem ganha um duplo sentido ainda mais perturbador: o imóvel é residência, mas é também hotel – espaço, por definição, de passagem, do transitório, do efêmero; espaço impessoal e público que tenta emular, de modo sempre canhestro, cafona, a identidade especial do lar, mesmo que sua função não seja, conscientemente, a de lar.
As três mulheres protagonistas, pertencentes a três gerações da mesma família (avó, mãe, filha), vivenciam a sua própria subjetividade como se esta fosse um hotel, uma estadia temporária, à espera-expectativa de que logo sejam realocadas para a vida e o ser que desejam possuir, a única vida e ser que consideram aceitável. É lógico que isso será receita para a tragédia. Como diz a sabedoria popular, não escolhemos a família dentro da qual a gente nasce, infelizmente. De todos, esse pode ser o dado de realidade mais atormentador com o qual nós precisemos lidar, sem outra opção.
Uma outra sugestão metafórico-psicanalítica importante é a imagem da piscina – enquanto volume de água relativamente profunda, no qual se pode imergir completamente. Volumes de água submergíveis podem ser representação do inconsciente e costumam povoar nossos sonhos e pesadelos. Nascemos a partir de um volume de água submergível (o feto dentro do útero, totalmente entregue ao inconsciente). Mas também podemos morrer em um volume de água submergível, abandonados ao inconsciente dissociado do consciente, do mundo, da vida, em um estado patológico. Não há nada mais aterrador do que isso.
Mal Viver (França / Portugal, 2023), dir.: João Canijo. O filme estreou na 73a edição do Festival de Cinema de Berlim. Ainda não há previsão de estreia no Brasil.
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